9 de janeiro
Nasce, em Paris, no boulevard du Montparnasse 103
, Simone-Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir.
Seu pai, Georges Bertrand de Beauvoir, acredita ainda pertencer à aristocracia francesa, mas, nesta época, a decadência já se faz sentir. Sua mãe, Françoise Brasseur, provinha de uma família da alta burguesia, porém à beira da ruína. Em virtude de um abastado passado comum, os pais de Simone a educarão com a firme idéia de que ela fazia parte de uma certa elite.
Sua única irmã, Hélène (apelidada de Poupette), nascerá dois anos mais tarde.

 
Boulevard du Montparnasse 103
Em outubro, Beauvoir inicia seus estudos no Cours Désir, uma instituição católica particular, na qual estudará dos 5 aos 17 anos.
Sempre que vai à escola, em companhia da babá, Simone é obrigada a passar diante da agitada clientela do La Rotonde (bar-restaurante no térreo do prédio em que ela mora), um ambiente nada apropriado a uma menina educada segundo princípios católico-burgueses. A despeito disso, a pequena Beauvoir sente-se cativada pelo vozerio barulhento, pelos rostos e silhuetas dos freqüentadores: um espetáculo da vida humana com seus dramas, comédias e encantos.
 
Simone aos 5 anos
Em agosto de 1914 os alemães declaram guerra. O pai de Simone parte para o front em outubro, mas um ataque cardíaco o traz de volta três meses depois. A guerra concede a Simone um pai mais atencioso: Georges de Beauvoir estimula em sua filha o culto à literatura, incutindo-lhe a idéia “de que não havia no mundo nada mais belo que ser escritor”. Françoise de Beauvoir partilha com o marido o amor aos livros e estimula Simone a escrever histórias.
Aluna extremamente dedicada, tudo interessa e causa profunda admiração a Simone, que demonstra uma curiosidade ilimitada. Durante toda a guerra ela não falta um só dia às aulas. Beauvoir adora estudar, por trás da vontade de aprender há o desejo de conquistar o mundo através do tempo e do espaço. A leitura será sempre para ela uma grande aventura, farta colheita de imagens, idéias e prazeres. Mas Simone não tarda a descobrir que existe uma felicidade bem maior do que ler: escrever.
 
Simone com os pais e a irmã
Aos dez anos Simone conhece Zaza (Élizabeth Lacoin), que acabava de entrar para o Cours Désir. De cabelos curtos, com aspecto de rapaz, Zaza provoca em Simone uma admiração imediata por seu desembaraço e desenvoltura. De espírito cáustico, cínica, Zaza ridicularizava todo mundo com prazer, inclusive a si mesma. Desprezava a humanidade, que lhe parecia pouco apreciável e demonstrava desprezo ainda maior pelas pessoas que só respeitavam o dinheiro e as dignidades pessoais. Toda a hipocrisia a revoltava. Simone ouve sua nova amiga deslumbrada, pois Zaza se atrevia a dizer bem alto o que Beauvoir apenas pensava.
Desenvolve um profundo sentimento de amizade por Zaza, amor-admiração que modifica fortemente sua visão de mundo, fazendo-a se tornar mais audaciosa, segura de si e insubordinada.
Em 1919, em virtude de problemas financeiros, a Família de Simone precisa deixar o imóvel do boulevard du Montparnasse por outro bem mais modesto, na rue de Rennes.
As relações entre Beauvoir e seu pai ficam tensas, o ambiente familiar pesado. Ela começa a perceber as contradições de Georges de Beauvoir, cada vez mais amargurado e arrogante, chegando a ser hostil com as filhas, sobretudo com Simone.
Aos 15 anos — já não mais acreditando em Deus — ela tem plena consciência do que será quando crescer: "uma escritora", não hesita em afirmar quando indagada a respeito. Em meio a constantes conflitos de ordem familiar, esta certeza lhe dá grande segurança interior.
 
Zaza e Simone
Simone passa com a menção bien no bacharelado de Latim-Letras e com menção très bien no bacharelado de Matemática Elementar. Decide que será professora até se tornar escritora. O pai de Beauvoir não se opõe a suas modestas pretensões, já que o magistério representa segurança, entretanto, sente-se humilhado acreditando que a filha é a encarnação de seu próprio fracasso. Ele considera Simone pobre e feia demais para arranjar marido, e, na época, o casamento era algo fundamental na vida de uma mulher. Por causa das idéias do pai, Simone torna-se uma jovem oprimida por sua inteligência fora do comum. Georges de Beauvoir acaba pressionando a filha a obter não apenas 2 licenciaturas, mas 3: Letras, Matemática e Filosofia. Simone matricula-se no Institut Catholique para conseguir um diploma em Matemática, e no Institut Sainte-Marie de Neuilly para a licenciatura em Letras.
Em 1926 entra para a Sorbonne e dedica-se com afinco ao estudo da Filosofia, que fortalece sua tendência em conceber o mundo em sua totalidade. Obsedada pela finitude da vida, Simone tem apenas um lema: vencer depressa.
Estabelece relações de amizade com Maurice Merleau-Ponty.
Em 1928, concluída a licenciatura em Filosofia, Beauvoir decide preparar sua agrégation (admissão por concurso ao título de professora-titular de nível superior), verdadeiro desafio para uma aluna da Sorbonne.
Começa a freqüentar alguns bares: La Rotonde, Jockey, Dôme.
Inicia amizade com René Maheu, que lhe dará o apelido de CASTOR, por causa da similaridade entre as palavras Beauvoir e Beaver (castor em inglês), e pelo espírito construtor que o animal simboliza.
 
Simone aos 17 anos
René Maheu aos 18 anos
Jean-Paul Sartre, também aluno da Sorbonne, impressionado com a beleza, inteligência e a voz rouca de Simone, envia-lhe, por intermédio de René Maheu, uma caricatura de Leibniz feita durante uma palestra, como forma de aproximação. Terminadas as provas escritas para a agrégation, Sartre, novamente usando Maheu como intermediário, convida Beauvoir a estudar em grupo para os exames orais. Ela aceita, e durante os próximos 15 dias separam-se apenas para dormir. Sartre é aprovado em 1º lugar na agrégation, Simone, com uma diferença de apenas 2 pontos, é a 2ª colocada — tornando-se a mais jovem agrégée da França.
Em setembro, Beauvoir deixa a casa dos pais em troca de um quarto alugado na casa da avó materna, na av. Denfert-Rochereau.
Ensina Latim num emprego temporário no Lycée Victor-Duruy.
Sartre e Simone estão apaixonados, entretanto, em vez de pedi-la em casamento, ele lhe propõe um pacto no qual monogamia e mentira não teriam lugar. Sartre acredita que antes de serem amantes, eles eram escritores, e como tal precisariam conhecer a fundo a alma humana, multiplicando suas experiências individuais e contando-as, um ao outro, nos mínimos detalhes. Entre Simone e Sartre o amor seria necessário, com as demais pessoas, seria contingente. Beauvoir aceita o pacto, pois ele está de acordo com suas próprias convicções.
Morte de Zaza em decorrência de problemas causados pelas objeções dos pais a seu casamento com Maurice Merleau-Ponty. Profundamente