Introdução
Atualmente,
na Academia,
o fenômeno
dos weblogs
é tema
recorrente
de dissertações,
teses e artigos
que pretendem
refletir sobre
a nova forma
de expressão
que surgiu
com o advento
da Internet.
Vários
autores têm
se dedicado
a pesquisar
sobre essa
nova forma
de escrita-de-si.
Este ensaio
surgiu da
necessidade
de refletir
sobre as diferenças
que possam
existir entre
o weblog e
os diários
íntimos,
já
que, muitas
vezes, o que
se vê
é a
utilização
de ambas as
expressões
como sinônimos.
Para um maior
aprofundamento
da questão,
buscamos descobrir
o sentido
de privacidade
ontem e hoje
e de que forma,
no decorrer
da História,
as alterações
desse conceito
têm
afetado a
escrita-de-si,
traduzindo-se
nos weblogs
da atualidade.
Memórias
X Privacidade:
o exemplo
de Simone
de Beauvoir
No
final da década
de 90, as
cartas enviadas
pela escritora
francesa Simone
de Beauvoir
a seu amante,
o escritor
norte-americano
Nelson Algren,
tornaram-se
públicas,
depois da
edição
do livro Cartas
a Nelson Algren:
um amor transatlântico
- 1947/1964.
O
livro, organizado
pela filha
adotiva de
Simone, Sylvie
Le Bon de
Beauvoir,
revela a escritora
de forma bastante
diferente
daquela até
então
conhecida
através
de suas memórias.
Tanto que,
à época
da publicação
do livro,
os críticos
especializados
enfatizaram
as demonstrações
francas de
afeto e a
linguagem
apaixonada
que deixava
Simone em
pé
de igualdade
com qualquer
adolescente
enamorado
que tivesse
o hábito
de escrever
cartas:
"Boa
noite, querido,
sinto-me sossegada
e feliz esta
noite, sei
que irei vê-lo;
não
será
muito breve,
mas também
não
daqui a muito
tempo; não
será
por longos
anos, mas
também
não
por apenas
alguns dias.
Só
tenho de esperar,
e vai acontecer.
Durante semanas
e semanas
será
com meus lábios
que direi
'boa noite,
querido',
e na cama,
aquecida pelo
seu calor,
você
estará
lá,
quando eu
despertar.
Será
maravilhoso!
Eu o sinto
bem próximo,
se hoje a
minha cama
não
está
aquecida pelo
seu calor,
ao menos o
meu coração
está.
Sua feliz
e apaixonada
rã.
Sua Simone."
(BEAUVOIR,
Simone de.
Cartas
a Nelson Algren:
um amor transatlântico,
1947-1964.
Rio de Janeiro:
Nova Fronteira,1997.
p. 136)
O
caso de amor
de Simone
de Beauvoir
e Nelson Algren
já
fora citado
em livro anteriormente.
Só
que não
através
da revelação
de uma correspondência
íntima.
Décadas
antes, a própria
Simone abordou
a relação
em seu livro
de memórias
A Força
das Coisas:
"Ambos
desejávamos
abreviar as
despedidas:
Algren me
deixaria por
volta do meio-dia,
no trem, em
Gary, e eu
iria sozinha
para o aeródromo.
Na última
manhã,
o tempo nos
pareceu longo;
não
queríamos
falar, e nos
incomodava
ficar calados.
Eu disse enfim
que estava
contente com
a minha estada,
e também
porque pelo
menos permanecia
entre nós
uma verdadeira
amizade. "Não
é amizade"
– disse
ele, brutalmente.
"Nunca
poderei sentir
por você
menos que
amor."
Essas palavras,
de repente,
depois daquelas
semanas tranqüilas,
punham tudo
novamente
em discussão:
se o amor
existia ainda,
por que as
despedidas
definitivas?
Todo o ano
passado me
veio de novo
ao coração,
e minha derrota
foi para mim
intolerável;
no táxi,
no trem, no
avião
e à
noite em Nova
York, durante
um filme de
Walt Disney,
no qual os
animais se
devoravam
uns aos outros
sem cessar,
não
parei de chorar.
Do meu quarto
no hotel Lincoln,
com os olhos
marejados
de lágrimas,
escrevi uma
breve carta
a Algren.
Estava ou
não
acabado? Cheguei
a Paris no
dia de finados,
havia crisântemos
e pessoas
de preto por
toda a parte.
E eu sabia
a resposta
à minha
pergunta."
(BEAUVOIR,
Simone de.
A Força
das Coisas.
Rio de Janeiro:
Nova Fronteira,1995.p.222)
A
diferença
no tom dos
textos é
evidente.
O fato de
que a carta
íntima
era dirigida
somente a
Algren, enquanto
que o livro
de memórias
seria li do
por milhares
de pessoas,
deve ser levado
em conta.
Em
A Força
das Coisas,
Simone de
Beauvoir se
sabe lida
por muitos,
e o texto,
mesmo revelando
suas emoções
sobre Algren
e contando
um pouco do
comportamento
do escritor,
é mais
contido e
demonstra
preocupação
estética.
Na
carta, o que
se lê
atende a uma
expectativa
mais "huis
clos"
e revela emoção
e subjetividade.
Ter exposto
a relação
com Algren
de forma mais
contida nas
memórias
do que nas
cartas não
livrou Simone
de Beauvoir
da censura.
O
próprio
Algren, quando
do lançamento
da tradução
americana
do livro,
tratou de
romper em
definitivo
com a francesa
e repudiou
de forma colérica
a publicação
em diversas
entrevistas
concedidas
após
a edição
de A Força
das Coisas.
Antes
do lançamento
da obra na
versão
norte-americana,
Simone de
Beauvoir já
havia prevenido
Algren: "Espero
que as passagens
que se refiram
a você
não
lhe desagradem,
pois eu coloquei
nelas todo
o meu coração."
(BEAUVOIR,
Simone. Cartas
a Nelson Algren
- um amor
transatlântico
1947-1964.
p. 9).
A
experiência
anterior,
como memorialista,
talvez fizesse
Simone de
Beauvoir antever
o que a exposição
de uma amostra
de intimidade
poderia causar.
Na
introdução
de A Força
das Coisas,
Simone de
Beauvoir diz
que já
fora acusada
de indiscrição
devido aos
escritos contidos
em suas memórias,
mas lembra
também
que optou
por fazer
de próprio
punho o esquadrinhamento
do seu passado,
em vez de
deixar que
outros o fizessem.
O
fato é
que, ao escrever
sobre a sua
vida, é
impossível
que a autora
cumprisse
a tarefa sem
envolver a
vida das pessoas
que a acompanhavam:
Jean-Paul
Sartre, Jean
Genet, Nelson
Algren, Albert
Camus, os
brasileiros
Jorge Amado
e Zélia
Gattai, entre
outras personalidades
conhecidas,
e algumas
menos famosas
receberam
citações
e tiveram
pedaços
de suas vidas
retratados
nas páginas
dos livros
de memórias
de Simone
de Beauvoir,
escritos a
partir dos
diários
da escritora
francesa.
Mesmo
que alguns
estivessem
protegidos
por pseudônimos,
houve quem
não
deixasse de
se ofender
com as referências
e tratasse
de repudiar
as citações,
oferecendo
a réplica
também
em livro,
como foi o
caso de Bianca
Lamblin, com
sua obra de
título
sugestivo:
Memórias
de uma Moça
Malcomportada.
A
ausência
do "íntimo"
O
que se lê
nas páginas
das memórias
de Simone
de Beauvoir
— guardadas
as devidas
proporções
— é
um pouco do
que se lê
hoje nas páginas
dos weblogs
que povoam
a Internet.
Com a diferença
de que, na
atualidade,
não
é mais
preciso ter
a vida célebre
de uma reconhecida
escritora
para divulgar
a autobiografia.
Um dos pontos
favoráveis
da Internet
é justamente
a capacidade
de democratizar
a circulação
de opiniões,
textos, fotos,
enfim, de
conceder a
todos os que
têm
acesso a esse
suporte um
pouco de celebridade.
Em
Blog:
comunicação
e escrita
íntima
na Internet,
Denise Schittine
recupera a
história
dos weblogs.
Conforme a
autora, esse
fenômeno
começou
a surgir no
Brasil em
torno do ano
2000.
A
palavra que
denomina os
diários
da Internet
é a
soma de web,
que significa
página
da Internet,
e log –
diário
de bordo.
Segundo Schittine,
a contração
weblog pode
muito bem
ser substituída
pela expressão
"diário
íntimo
na Internet",
já
que muitos
blogueiros
utilizam o
espaço
para tratar
de questões
pessoais,
de sua vida
privada.
Essa
proposta pode
causar alguma
confusão,
já
que muitos
hoje acreditam
que o blog
é,
de fato, o
diário
íntimo
de ontem.
Não
é.
Diário
íntimo
é aquele
escrito de
si para si.
Simone
de Beauvoir
escrevia suas
memórias
a partir de
seus diários
íntimos.
Ou seja, era
uma reescrita
de um material
que inicialmente
tinha caráter
privado. O
blog, ao se
saber público,
não
pode ser incluído
na categoria
de escrito
íntimo.
O
que se tem
hoje com os
blogs são
autobiografias
de ilustres
desconhecidos
que, com a
Internet,
obtêm
seus quinze
minutos de
fama —
como preconizou
Andy Warhol
— ou
que são
alçados
para a fama
de fato graças
ao sucesso
que obtêm
na Internet.
Além
disso, ao
dispor escritos
pessoais para
milhões
de usuários
da Internet
em todo o
mundo, perde-se
de imediato
a idéia
de "íntimo"
que o diário
pudesse conter,
já
que o relato
do autor deixa
de ser uma
escrita de
si para si
e se transforma
em uma escrita
de si para
o mundo.
É
bem verdade
que a intimidade
contida nos
weblogs não
deixa de existir
na totalidade,
já
que boa parte
dos weblogs
que circulam
na Internet
não
só
traduzem as
opiniões
dos usuários
sobre os mais
variados fatos,
mas também
oferecem,
com detalhes,
descrições
da vida cotidiana
dos blogueiros
e das pessoas
que com eles
convivem.
Mas isso não
pode conceder
ao blog o
caráter
de diário
íntimo
que muitos
acreditam
que ele possa
ter.
O
diário
íntimo
carrega consigo
a idéia
de algo secreto.
No seu livro,
Denise Schittine,
explica a
origem da
palavra segredo
a partir do
autor A. S.
Levy. Segredo
é uma
derivação
do verbo secerno,
que significa
separar, discernir.
Ou seja, segredo
tem relação
com a escolha
que se faz
entre quem
deve e quem
não
deve saber
algo.
Cerno
significa
joeirar, o
que, na colheita
dos cereais,
resulta na
separação
entre o que
serve e o
que não
serve para
ser comido.
Ora, através
da Internet,
se em um blog
tudo é
revelado,
é bastante
difícil
conseguir
separar os
receptores,
escolhendo
quem deve
e quem não
deve ler os
escritos de
uma vida privada,
perdendo-se,
portanto,
o caráter
de segredo.
Com isso,
fica evidente
que o blog
não
é de
fato um diário
íntimo.
Além
disso, resta
a dúvida:
será
que tudo que
está
escrito no
blog é
mesmo verdadeiro
e de fato
é a
vida íntima
de alguém?
Ou seria,
no caso, uma
vida íntima
editada especialmente
para ser publicada
e vista por
todos?
Salvo
os casos raros
de pura ingenuidade,
é de
se duvidar
que os blogueiros,
assim como
Simone de
Beauvoir em
suas memórias,
não
pensem no
público
antes de redigir
a sua história,
separando
o joio do
trigo e escolhendo
o que deve
e como deve
ser revelado.
Desta
forma, poderia
se dizer então
que o blog
é o
diário
"íntimo"
para consumo
externo. Muito
pouco o aproxima
do diário
íntimo
que não
visa leitores
e que não
se sabe, ao
certo, se
está
de fato morto
ou se continua
existindo,
na sobra do
que não
foi parar
na Internet.
A
construção
da privacidade
No
artigo Duas
Notas sobre
os Blogs,
o professor
e escritor
Charles Kiefer
afirma que
"o blog
é a
objetivação
de uma nova
subjetividade."
Segundo Kiefer,
o diário
íntimo
era produto
de uma necessidade
de instauração
da individualidade
que as características
econômicas
de um momento
histórico
— a
constituição
do capitalismo
— estimulavam
que se formasse.
O blog é
a manifestação
de um novo
momento:
"(...)
o blog, no
estágio
avançado
do capitalismo
contemporâneo
(em que toda
a manifestação
cultural se
transforma
em mercadoria),
é também
produto de
uma nova identidade
nacional e,
no limite,
da noção
de identidade
pessoal. Não
por acaso,
ao mesmo tempo
em que se
multiplicam
vertiginosamente
a criação
e o consumo
da nova forma
artística,
destroem-se
impiedosamente
os fundamentos
do Estado-Nação
— a
moeda nacional,
o direito
de autodeterminação
— sob
o rolo compressor
da globalização."(KIEFER,
Charles. Duas
Notas sobre
os Blogs.
In: www.bestiario.com
(acessado
em 6 de janeiro
de 2006, às
16h20min)
Para
Kiefer, o
ego expresso
nos diários
íntimos
era pudico,
e agora o
que se tem
com os blogs
é um
ego promíscuo
e voyerista.
O fato de
muitos blogs
terem como
assinatura
um pseudônimo
é,
conforme o
autor, um
resquício
do passado,
da antiga
ética
do diário
íntimo,
mas que se
traduz em
um saudosismo
passageiro.
Para
compreender
um pouco mais
sobre o diário
íntimo
e o blog,
faz-se necessário
se debruçar
sobre a idéia
de privacidade
que se tem
hoje e que
se tinha antes
e de como
a privacidade
surgiu enquanto
conceito na
vida dos cidadãos.
Os
historiadores
Philippe Ariès
e Georges
Duby pesquisaram
a origem do
conceito de
privacidade
e encontraram,
em dicionários
de língua
francesa do
século
XIX —
momento em
que a vida
privada adquiria
todo o vigor
—, o
verbo privar,
significando
domesticar,
domar.
O
exemplo utilizado
por Littré
era de "um
pássaro
privado",
ou seja, retirado
de um espaço
selvagem e
transportado
para um ambiente
doméstico.
Conforme Ariès
e Duby, esses
mesmos dicionários
apresentam
o adjetivo
privado representando
a família,
a casa, o
interior.
Para
exemplificar,
Littré
escolheu a
frase: "A
vida secreta
deve ser murada".
(ARIÈS,
Philippe e
DUBY, Georges.
História
da Vida Privada
– da
Europa feudal
à Renascença.
Vol. 2. São
Paulo: Companhia
das Letras,
1997. p.19).
Ou
seja, o privado
se opõe
ao público,
e remete a
tudo aquilo
que é
de caráter
oculto, secreto,
reservado.
Autores de
uma coleção
que esmiúça
a vida privada,
Ariès
e Duby concluem
que foi a
partir da
Europa Feudal
que a idéia
de privacidade
começou
a se modelar:
"No
limite, poder-se-ia
dizer que,
na sociedade
que se torna
feudal, a
área
do público
se embota,
se encolhe,
e que, ao
termo do processo,
tudo é
privado, que
a vida privada
penetra tudo."
(ARIÈS,
Philippe e
DUBY, Georges.
História
da Vida Privada
– da
Europa feudal
à Renascença.
Vol. 2. São
Paulo: Companhia
das Letras,
1997. p.24).
A
caminhada
em direção
à idéia
de privacidade
teve seu auge
na Revolução
Francesa,
com a ascensão
da burguesia
e dos direitos
do homem e
confluiu com
as necessidades
criadas a
partir da
Revolução
Industrial
e a proposta
de um homem
uno, consumidor
com características
individuais
sólidas.
A
noção
de privacidade
também
está
relacionada
ao conforto
material que
as pessoas
passaram a
ter, o que
não
havia em tempos
anteriores.
As casas começaram
a dispor de
melhores condições,
e os membros
da família
puderam se
dar ao luxo
de ter um
espaço
reservado,
um studio,
para onde
se retiravam
e podiam até
mesmo escrever
suas impressões
sobre o cotidiano,
sobre si mesmos
e suas famílias,
de forma reservada,
longe dos
olhares curiosos.
Para
exemplificar
o quanto a
idéia
de privacidade
foi um conceito
construído
durante muitos
séculos,
vale lembrar
Hanna Arendt,
que, na obra
A Condição
Humana,
explica que
muito dificilmente
se encontraria
na Antigüidade
grega traços
do que hoje
chamamos de
privado.
Arendt
esclarece,
em seu livro,
que, para
os antigos,
o caráter
privativo
de 'privatividade'
não
tinha nenhuma
relação
com a idéia
de intimidade
que se tem
hoje, e sim
com uma imagem
de se ver
privado de
algo.
De
acordo com
a autora,
na Antigüidade,
quem quer
que vivesse
uma vida privada
não
era inteiramente
humano, e
essa condição
valia para,
por exemplo,
o homem que,
como escravo,
não
tomava parte
da esfera
pública,
tão
valorizada
nessa época.
Essa
explicação
esclarece
o quão
importante
era na Antigüidade
a idéia
de uma vida
pública.
Na Grécia
Antiga o que
de fato tinha
importância
era a participação
pública
do cidadão
na polis.
"Hoje
não
nos ocorre,
de pronto,
esse aspecto
de privação
quando empregamos
a palavra
'privatividade';
e isso em
parte, se
deve ao enorme
enriquecimento
da esfera
privada através
do moderno
individualismo."
(ARENDT, Hanna.
A Condição
Humana.
Rio de Janeiro:
Forense Universitária,
1997 p.48).
Com
a consagração
de um conceito
de privacidade,
os atos ganharam
novas acepções.
Arendt explica
que o fato
de uma atividade
ocorrer em
particular
ou em público
muda completamente
o seu caráter
e o da esfera
na qual ela
se insere,
seja ela pública
ou privada.
Mas
ambas as esferas
coexistem
e dependem
uma da outra
para se manterem:
"Uma
vez que a
nossa percepção
da realidade
depende totalmente
da aparência
e, portanto,
da existência
de uma esfera
pública
na qual as
coisas possam
emergir da
treva da existência
resguardada,
até
mesmo a meia-luz
que ilumina
a nossa vida
privada e
íntima
deriva, em
última
análise,
da luz muito
mais intensa
da esfera
pública."