Sentados
num banco
de pedra no
Jardim do
Carroussel,
praça
diante da
entrada principal
do Louvre
onde hoje
se erguem
as polêmicas
pirâmides
de vidro,
Jean-Paul-Charles-Aymard
Sartre e Simone-Ernestine-Lucie-Marie
Bertrand de
Beauvoir decidiram
firmar, em
1929, um contrato
de dois anos.
Quem propôs
foi ele, aos
23 anos um
brilhante
e indisciplinado
aluno da École
Normale Superieure,
passagem obrigatória
de dez entre
dez grandes
intelectuais
franceses.
Segundo ela,
que tinha
21 e também
pleiteava
uma agrégation
em filosofia,
a proposta
era clara:
"Entre
nós,
trata-se de
um amor necessário:
convém
que conheçamos
também
amores contingentes."
Se esta cena
chega até
hoje com tamanha
riqueza de
detalhes é
porque seus
protagonistas
assim o desejaram.
E, mais do
que isso,
deliberadamente
fizeram de
suas vidas
uma daquelas
narrativas
fundadoras:
Jean-Paul
Sartre e Simone
de Beauvoir,
sinônimos
de intelectual,
existencialismo,
engajamento,
liberdade
e liberação.
Nesta
história,
hoje é
impossível
— e
sobretudo
inútil
— separar
obra de vida,
mito de verdade,
existência
de aparência.
Sartre &
Simone são
quase uma
entidade e,
por isso mesmo,
só
podem ser
medidos pelas
escalas da
paixão,
da adoração
ao ódio
com paradas
obrigatórias
na herança
de suas obras,
esta concreta,
para a filosofia
contemporânea,
a militância
socialista
e o feminismo.
Num destes
extremos está
Le
Paris de Jean-Paul
Sartre et
Simone de
Beauvoir,
álbum
luxuoso de
Jean-Luc Moreau
(texto) e
Bruno Barbey
(fotos) que
refaz a geografia
dos dois na
cidade em
que "nasceram,
viveram e
morreram".
No outro,
o acerto de
contas em
que Bernard-Henri
Lévy
faz no ensaio
O Século
de Sartre.
No centro
de tudo, se
é que
é possível
localizá-lo,
o Sartre "ele
mesmo",
livre de comentadores,
na primeira
versão
brasileira
completa da
Crítica
da Razão
Dialética,
a mais alentada
obra de sua
maturidade,
publicada
originalmente
em 1960.
O
"amor
necessário"
que uniu por
50 anos Sartre
e Simone era,
na verdade
um ménage-à-trois.
Não
pelos incontáveis
amantes que
de comum acordo
freqüentaram
as vidas de
um e de outro
até
o fim. O terceiro
e permanente
vértice
do triângulo
foi, sem força
de retórica,
Paris. E um
perímetro
bem definido
da cidade
que mais concentra
fantasmas
literários
em todo o
mundo: seus
domínios
abrangiam
um jardim
(o Luxemburgo)
e algumas
dezenas de
ruas em tomo
dele, dos
bairros de
Saint-Germain-des-Prés
a Montparnasse.
"Se considero
a linha geral
de minha vida,
ela me impressiona
por sua continuidade",
escreve Simone
no último
volume de
suas memórias,
Balanço
Final
(Tout
compte fait).
"Eu nasci,
eu vivi em
Paris: mesmo
nos anos passados
em Marselha,
em Rouen,
continuei
ancorada lá."
Partindo destas
e de outras
anotações
— principalmente
das memórias
da autora
de O Segundo
Sexo,
mais generosa
em confissões
—, Jean-Luc
Moreau montou
os itinerários
visuais de
Le
Paris de Jean-Paul
Sartre et
Simone de
Beauvoir.
O
livro das
Éditions
du Chêne
faz uma montagem
da Paris de
ontem e de
hoje para
mostrar como
o primeiro
"casamento
aberto"
da história
foi fiel em
sua obsessão
pela cidade.
As imagens
da cidade
nas décadas
de 20 e 30,
"anos
de aprendizagem"
de um e de
outro, vêm
em sua maioria
da insuperável
objetiva de
André
Kertész
em belos detalhes
da vida em
Montparnasse
como uma cena
de rua, uma
chaminé
ou o flagrante
jornalístico
de uma lavanderia.
São
as imagens-cenário
do livro,
sempre comentadas
pelas tomadas
em cor, contemporâneas,
de Bruno Barbey.
Cliques anônimos
dão
conta dos
personagens
na época,
também
retratados,
como não
poderia deixar
de ser, em
seus portraits
clássicos
de Henri Cartier-Bresson.
Entre
bibliotecas,
livrarias,
cafés
e cabarés,
os jovens
Sartre e Simone
começam
a tecer os
laços,
que se mostrariam
indiscerníveis,
entre vidas
e obras. Ao
lembrar 1946,
quando passou
a dividir
com a mãe
o famoso apartamento
da Rue
Bonaparte
— de
onde via a
igreja de
Saint-Germain,
o café
Les Deux Magots
e a praça
que foi rebatizada
em sua homenagem
e de Simone
— Sartre
dá
a medida da
importância
da cidade
em sua vida:
"Até
então
sempre vivi
no hotel,
trabalhei
no café,
comi no restaurante
e isso era
muito importante
para mim,
o fato de
não
ter nada.
Era uma forma
de saúde
pessoal; eu
teria me sentido
perdido —
como se sentia
Mathieu —
se tivesse
tido um apartamento
meu, com móveis
e objetos
pessoais."
A
poucos metros
de seu balcão
da Bonaparte;
estavam as
caves de "má
reputação"
para a provinciana
Paris dos
anos 40, onde
o existencialismo
se difundia
como uma moda
e o jazz,
via bebop,
começava
a invadir
a cidade.
Eram as noites
em que o Sartre
pianista amador
atravessava
ao lado de
Boris Vian,
o romancista,
compositor
e trompetista
que fez uma
deliciosa
trilha sonora
destes anos
loucos em
músicas
como Je
suis snob
ou Fais-mal
à moi,
Johnny.
Também
ali, cercado
por um entourage
que ia de
Albert Camus
(antes da
briga que
os separou
para sempre)
a Juliette
Greco, articulou
a fundação
da revista
Les Temps
Modernes,
um dos marcos
da radical
politização
de sua atuação
pública
dos anos 50
aos 70.
O
casal sempre
morou em apartamentos
separados.
Simone, inicialmente,
vivia num
studio na
Rue de
la Bûcherie,
rua onde funciona
hoje a livraria
Shakespeare
& Company
(ponto intelectual
da Paris de
Hemingway
e James Joyce),
com generosa
vista para
a Notre
Dame,
o que impressionou
muito seu
"marido"
americano,
o Nelson Algren
de O Homem
do Braço
de Ouro.
Em seus últimos
anos, ela
voltou para
Montparnasse
onde nascera,
ocupando um
studio duplex
com vista
para o belo
cemitério
onde seria
enterrada
no mesmo túmulo
de Sartre.
O filósofo,
por sua vez,
depois de
ter o apartamento
atingido por
duas bombas,
também
transferiu-se
em 1962 para
as imediações
do cemitério.
Faziam
dos restaurantes
clássicos
da região
seu refeitório.
Eram figurinhas
fáceis
no Dôme
e sobretudo
no La
Coupole,
cenário
de uma das
melhores fotografias
do livro,
de autoria
do próprio
Bruno Barbey:
em 1969, já
marcados pela
idade, dividem
uma mesa e
um jornal
como pacatos
velhinhos
parisienses.
Difícil
acreditar
que são
os mesmo que,
depois das
revoltas de
maio —
"68 chegou
um pouco tarde
para mim",
dizia um Sartre
alquebrado
— passam
a militar
na esquerda
radical, em
manifestações
de apoio a
operários
e sindicalistas.
Depois da
morte de Sartre,
em 1980, Simone
não
perdeu a verve
e é
notável
sua fotografia,
altiva e sorridente,
numa barulhenta
manifestação
pela legalização
do aborto.
Em
tudo e por
tudo, Le
Paris de Jean-Paul
Sartre et
Simone de
Beauvoir
mitifica ostensivamente
o casal. Reflete,
ainda que
de forma light
e charmosa,
o peso histórico
que um intelectual
como Bernard-Henri
Lévy
suporta com
dificuldade.
No dia 19
de abril de
1980, quando
tinha 30 anos
"e um
bom lote de
entusiasmos,
de ilusões,
de decepções",
Lévy
estava entre
as 50 mil
pessoas que
foram ao cemitério
de Montparnasse
se despedir
de Sartre.
Como o diretor
Claude Lanzmann
disse a Simone,
com quem dividiu
o comitê
da Temps
Modernes
(que edita
até
hoje) e um
casamento
bem à
la Beauvoir,
o enterro
foi "a
última
manifestação
de 68".
Como nas revoltas
dos "sessentaoitistas",
Lévy
estava lá
movido por
sentimentos
vagos, sem
saber muito
bem por que:
"pouco
importava,
ficou claro,
saber se eu
havia amado
ou detestado
Sartre, ou
ainda, se
o havia amado
apesar de
o detestar,
ou mesmo o
inverso. Contavam
apenas aqueles
sentimentos
controversos
que ele inspirava,
em sua época
e que, sobretudo,
insuflava."
Paulo
Roberto Pires
é editor
de cultura
do site nominimo.ibest.com.br