Gerassi
—
Já
se passaram
25 anos desde
que O
Segundo Sexo
foi publicado.
Muitas pessoas,
principalmente
nos Estados
Unidos, o
consideram
o início
do movimento
feminista
contemporâneo.
Você
consideraria...
Beauvoir
— Acho
que não.
O movimento
feminista
atual, que
começou
há
uns cinco
ou seis anos,
não
conhecia realmente
o livro. Posteriormente,
com o crescimento
do movimento,
algumas das
líderes
tiraram parte
de sua fundamentação
teórica
do livro.
Mas não
foi O
Segundo Sexo
que desencadeou
o movimento.
A maior parte
das mulheres
que se tornaram
ativas no
movimento
era muito
jovem quando
o livro foi
lançado,
em 1949-50,
para serem
influenciadas
por ele. O
que me lisonjeia,
é claro,
foi elas o
terem descoberto
mais tarde.
Certamente
algumas mulheres
mais velhas
— Betty
Friedan, por
exemplo, que
dedicou The
Feminine Mystique
(A Mística
Feminina)
a mim —
tinham lido
O Segundo
Sexo
e talvez tenham
sido influenciadas
por ele de
algum modo.
Mas as outras,
de forma alguma.
Kate Millet,
por exemplo,
não
me cita nenhuma
vez em seu
trabalho.
Pode ser que
elas tenham
se tornado
feministas
pelas razões
que eu explico
em O Segundo
Sexo;
mas elas descobriram
essas razões
em suas experiências
de vida, não
em meu livro.
Gerassi
—
Você
disse que
sua própria
consciência
feminista
surgiu da
experiência
de escrever
O Segundo
Sexo.
Como você
vê o
desenvolvimento
do movimento
após
a publicação
do seu livro
em termos
de sua própria
trajetória?
Beauvoir
— Ao
escrever O
Segundo Sexo
tomei consciência,
pela primeira
vez, de que
eu mesma estava
levando uma
vida falsa,
ou melhor,
estava me
beneficiando
dessa sociedade
patriarcal
sem ao menos
perceber.
Acontece que
bem cedo em
minha vida
aceitei os
valores masculinos
e vivia de
acordo com
eles. É
claro, fui
muito bem-sucedida
e isso reforçou
em mim a crença
de que homens
e mulheres
poderiam ser
iguais se
as mulheres
quisessem
essa igualdade.
Em outros
termos, eu
era uma intelectual.
Tive a sorte
de pertencer
a uma família
burguesa,
que, além
de financiar
meus estudos
nas melhores
escolas, também
permitiu que
eu brincasse
com as idéias.
Por causa
disso, consegui
entrar no
mundo dos
homens sem
muita dificuldade.
Mostrei que
poderia discutir
filosofia,
arte, literatura,
etc., no “nível
dos homens”.
Eu guardava
tudo o que
fosse próprio
da condição
feminina para
mim. Fui,
então,
motivada por
meu sucesso
a continuar,
e, ao fazê-lo,
vi que poderia
me sustentar
financeiramente
assim como
qualquer intelectual
do sexo masculino,
e que eu era
levada a sério
assim como
qualquer um
de meus colegas
do sexo masculino.
Sendo quem
eu era, descobri
que poderia
viajar sozinha
se quisesse,
sentar nos
cafés
e escrever,
e ser respeitada
como qualquer
escritor do
sexo masculino,
e assim por
diante. Cada
etapa fortalecia
meu senso
de independência
e igualdade.
Portanto,
tornou-se
muito fácil
para mim esquecer
que uma secretária
nunca poderia
gozar destes
mesmos privilégios.
Ela não
poderia sentar-se
num café
e ler um livro
sem ser molestada.
Raramente
ela seria
convidada
para festas
por seus “dotes
intelectuais”.
Ela não
poderia pegar
um empréstimo
ou comprar
uma propriedade.
Eu sim. E
pior ainda,
eu costumava
desprezar
o tipo de
mulher que
se sentia
incapaz, financeiramente
ou espiritualmente,
de mostrar
sua independência
dos homens.
De fato, eu
pensava, sem
dizê-lo
a mim mesma,
“se
eu posso,
elas também
podem”.
Ao pesquisar
e escrever
O Segundo
Sexo foi
que percebi
que meus privilégios
resultavam
de eu ter
abdicado,
em alguns
aspectos cruciais
pelo menos,
à minha
condição
feminina.
Se colocarmos
o que estou
dizendo em
termos de
classe econômica,
você
entenderá
facilmente.
Eu tinha me
tornado uma
colaboracionista
de classe.
Bem, eu era
mais ou menos
o equivalente
em termos
da luta de
sexos. Através
de O Segundo
Sexo
tomei consciência
da necessidade
da luta. Compreendi
que a grande
maioria das
mulheres simplesmente
não
tinha as escolhas
que eu havia
tido; que
as mulheres
são,
de fato, definidas
e tratadas
como um segundo
sexo por uma
sociedade
patriarcal,
cuja estrutura
entraria em
colapso se
esses valores
fossem genuinamente
destruídos.
Mas assim
como para
os povos dominados
econômica
e politicamente,
o desenvolvimento
da revolução
é muito
difícil
e muito lento.
Primeiro,
as mulheres
têm
que tomar
consciência
da dominação.
Depois, elas
têm
de acreditar
na própria
capacidade
de mudar a
situação.
Aquelas que
se beneficiam
de sua “colaboração”
têm
que compreender
a natureza
de sua traição.
E, finalmente,
aquelas que
têm
mais a perder
por tomar
posição,
isto é,
mulheres que,
como eu, buscaram
uma situação
confortável
ou uma carreira
bem-sucedida,
têm
que estar
dispostas
a arriscar
sua situação
de segurança
— mesmo
que seja apenas
se expondo
ao ridículo
— para
alcançar
respeito próprio.
E elas têm
que entender
que suas irmãs
que são
mais exploradas
serão
as últimas
a se juntarem
a elas. Uma
esposa de
operário,
por exemplo,
é menos
livre para
se juntar
ao movimento.
Ela sabe que
seu marido
é mais
explorado
do que a maioria
das líderes
feministas
e que ele
depende de
seu papel
de mãe/dona-de-casa
para sobreviver.
De qualquer
forma, por
todas essas
razões,
as mulheres
não
se mobilizaram.
Ah sim, houve
alguns pequenos
movimentos
bem interessantes,
bem inteligentes,
que lutaram
por promoções
políticas,
pela participação
das mulheres
na política,
no governo.
Eu não
me refiro
a esses grupos.
Então
veio 1968
e tudo mudou.
Sei que alguns
eventos importantes
aconteceram
antes disso.
O livro de
Betty Friedan,
por exemplo,
foi publicado
antes de 1968.
Na verdade,
as mulheres
norte-americanas
já
estavam se
mobilizando
nessa época.
Elas, mais
do que ninguém,
e por razões
óbvias,
estavam cientes
das contradições
entre as novas
tecnologias
e o papel
conservador
de manter
as mulheres
na cozinha.
Com o desenvolvimento
da tecnologia
— tecnologia
como poder
do cérebro
e não
dos músculos
— a
lógica
masculina
de que as
mulheres são
o sexo frágil
e, por isso,
devem representar
um papel secundário
não
pôde
mais ser sustentada.
Como as inovações
tecnológicas
eram muito
difundidas
nos Estados
Unidos, as
mulheres norte-americanas
não
escaparam
às
contradições.
Foi, portanto,
natural que
o movimento
feminista
tivesse seu
maior ímpeto
no coração
do capitalismo
imperial,
ainda que
esse ímpeto
tenha sido
estritamente
econômico,
isto é,
a reivindicação
por salários
iguais, trabalhos
iguais. Mas
foi dentro
do movimento
anti-imperialista
que a verdadeira
consciência
feminista
se desenvolveu.
Tanto no movimento
contra a Guerra
do Vietnã
nos EUA quanto
logo depois
da rebelião
de 1968 na
França
e em outros
países
europeus,
as mulheres
começaram
a sentir seu
poder. Ao
compreender
que o capitalismo
leva necessariamente
à dominação
dos povos
pobres em
todo o mundo,
milhares de
mulheres começaram
a aderir à
luta de classes
— mesmo
quando não
aceitavam
o termo “luta
de classes”.
Elas se tornaram
ativistas.
Elas aderiram
às
marchas, às
demonstrações,
às
campanhas,
aos grupos
clandestinos,
à militância
de esquerda.
Elas lutavam,
tanto quanto
qualquer homem,
por um futuro
sem explorações,
sem alienações.
Mas o que
aconteceu?
Nos grupos
ou organizações
a que aderiram,
elas descobriram
que, assim
como na sociedade
que tentavam
combater,
também
eram tratadas
como o segundo
sexo. Aqui
na França,
e eu me arrisco
a dizer também
nos EUA, elas
perceberam
que os líderes
eram sempre
os homens.
As mulheres
se tornavam
datilógrafas
e serviam
café
nesses grupos
pseudo-revolucionários.
Bom, eu não
deveria dizer
pseudo. Muitos
dos participantes
desses movimentos
eram revolucionários
genuínos.
Mas tendo
sido treinados,
educados e
moldados em
uma sociedade
patriarcal,
estes revolucionários
trouxeram
esses valores
para o movimento.
Compreensivelmente,
estes homens
não
iriam abrir
mão
desses valores
voluntariamente,
assim como
a classe burguesa
não
abrirá
mão
de seu poder
voluntariamente.
Dessa forma,
assim como
cabe ao pobre
tomar o poder
do rico, também
cabe às
mulheres tirar
o poder dos
homens. E
isso não
quer dizer
que, por outro
lado, elas
devam dominar
os homens.
Significa
estabelecer
igualdade.
Assim como
o socialismo,
o verdadeiro
socialismo,
estabelece
igualdade
econômica
entre todos
os povos,
o movimento
feminista
aprendeu que
ele teria
que estabelecer
igualdade
entre os sexos
tirando o
poder da classe
que liderava
o movimento,
isto é,
dos homens.
Colocando
em outros
termos: uma
vez dentro
da luta de
classes, as
mulheres perceberam
que a luta
de classes
não
eliminava
a luta de
sexos. Foi
nesse ponto
que eu mesma
tomei consciência
do que acabei
de dizer.
Antes disso,
estava convencida
de que a igualdade
entre homens
e mulheres
só
era possível
com a destruição
do capitalismo
e, portanto
— e
é esse
“portanto”
que é
uma falácia
— nós
temos que
lutar primeiro
a luta de
classes. É
verdade que
a igualdade
entre homens
e mulheres
é impossível
no capitalismo.
Se todas as
mulheres trabalharem
tanto quanto
os homens,
o que acontecerá
com essas
instituições
das quais
o capitalismo
depende, instituições
como igreja,
casamento,
exército,
e os milhões
de fábricas,
lojas, etc.
que dependem
de trabalho
de meio-expediente
e mão-de-obra
barata? Mas
não
é verdade
que a revolução
socialista
estabelece
necessariamente
a igualdade
entre homens
e mulheres.
Dê uma
olhada na
União
Soviética
ou na Tchecoslováquia,
onde (mesmo
se nós
estivermos
dispostos
a chamar esses
países
de “socialistas”,
e eu não
estou) há
uma confusão
profunda entre
emancipação
do proletariado
e emancipação
da mulher.
De alguma
forma, o proletariado
sempre termina
sendo constituído
de homens.
Os valores
patriarcais
permaneceram
intactos,
tanto lá
quando aqui.
E isso —
essa consciência
entre as mulheres
de que a luta
de classes
não
engloba a
luta de sexos
— é
que é
novo. A maioria
das mulheres
sabe disso
agora. Essa
é a
maior conquista
do movimento
feminista.
É a
que vai alterar
a história
nos próximos
anos.
Gerassi
—
Mas essa consciência
está
limitada às
mulheres que
são
de esquerda,
isto é,
mulheres comprometidas
com a reestruturação
de toda a
sociedade.
Beauvoir
— Bom,
é claro,
já
que as outras
são
conservadoras,
o que significa
que elas querem
conservar
o que foi
ou o que é.
Mulheres de
direita não
querem revolução.
Elas são
mães,
esposas, devotadas
aos seus homens.
Ou, quando
são
agitadoras,
o que elas
querem é
um pedaço
maior do bolo.
Elas querem
salários
melhores,
eleger mulheres
para os parlamentos,
ver uma mulher
se tornar
presidente.
Fundamentalmente,
acreditam
na desigualdade,
só
que elas querem
estar no topo
e não
por baixo.
Mas elas se
acomodam bem
ao sistema
como ele é
ou com as
pequenas mudanças
para acomodar
suas reivindicações.
O capitalismo
certamente
pode se dar
ao luxo de
permitir às
mulheres a
servir o exército
ou entrar
para a força
policial.
O capitalismo
é certamente
inteligente
o suficiente
para deixar
mais mulheres
participarem
do governo.
O pseudo-socialismo
pode certamente
permitir que
uma mulher
se torne secretária-geral
de seu partido.
Isso são
apenas reformas
sociais, como
o seguro social
ou as férias
pagas. A institucionalização
das férias
pagas mudou
a desigualdade
do capitalismo?
O direito
das mulheres
trabalharem
em fábricas
com salários
iguais aos
dos homens
mudou os valores
masculinos
da sociedade
Tcheca? Mas
mudar todo
o sistema
de valor de
qualquer sociedade,
destruir o
conceito de
maternidade:
isso é
revolucionário.
Uma feminista,
quer ela se
autodenomine
esquerdista
ou não,
é uma
esquerdista
por definição.
Ela está
lutando por
uma igualdade
plena, pelo
direito de
ser tão
importante,
tão
relevante,
quanto qualquer
homem. Por
isso, incorporada
em sua revolta
pela igualdade
de gêneros
está
a reivindicação
pela igualdade
de classes.
Numa sociedade
em que o homem
pode ser a
mãe,
em que, vamos
dizer, para
colocar o
argumento
em termos
de valores
para que fique
claro, a assim
chamada “intuição
feminina”
é tão
importante
quanto o “conhecimento
masculino”
— para
usar a linguagem
corrente,
apesar de
absurda —
em que ser
gentil ou
delicado é
melhor do
que ser durão;
em outras
palavras,
em uma sociedade
na qual a
experiência
de cada pessoa
é equivalente
a qualquer
outra, você
já
estabeleceu
automaticamente
a igualdade,
o que significa
igualdade
econômica
e política
e muito mais.
Dessa forma,
a luta de
sexos inclui
a luta de
classes, mas
a luta de
classes não
inclui a luta
de sexos.
As feministas
são,
portanto,
esquerdistas
genuínas.
De fato, elas
estão
à esquerda
do que nós
chamamos tradicionalmente
de esquerda
política.
Gerassi
—
Mas, enquanto
isso, ao travar
a luta de
sexos apenas
dentro da
esquerda —
já
que, como
você
disse, a luta
de sexos é,
pelo menos
temporariamente,
irrelevante
dentro de
outros setores
políticos
— as
feministas
não
estariam enfraquecendo
a esquerda,
e, conseqüentemente,
fortalecendo
aqueles que
exploram tanto
as mulheres
como os pobres?
Beauvoir
— Não,
e, a longo
prazo, isso
só
vai fortalecer
a esquerda.
Pelo simples
fato de que,
ao serem confrontados
como esquerdistas,
isto é,
como opositores
à exploração,
homens esquerdistas
serão
forçados
a descer do
pedestal.
Mais e mais
grupos se
sentem compelidos
a botar em
xeque seus
líderes
do sexo masculino.
Isso é
progresso.
Aqui em nosso
jornal, Libération,
a maioria
se sentiu
obrigada a
deixar uma
mulher se
tornar sua
diretora.
Isso é
progresso.
Os homens
de esquerda
estão
começando
a tomar cuidado
com a linguagem,
estão...
Gerassi
—
Mas isso é
real? Quer
dizer, eu
aprendi, por
exemplo, a
nunca usar
a palavra
“gostosa”,
a prestar
atenção
nas mulheres
em qualquer
discussão
de grupo,
a lavar a
louça,
arrumar a
casa, fazer
as compras.
Mas será
que eu sou
menos sexista
em meus pensamentos?
Será
que eu rejeitei
os valores
masculinos?
Beauvoir
— Você
quer dizer,
no seu íntimo?
Para ser sincera,
quem se importa?
Pense um pouco.
Você
conhece um
sulista racista.
Você
sabe que ele
é racista
porque o conhece
desde que
nasceu. Mas
ele nunca
diz “crioulo”.
Ele escuta
a todas as
reclamações
dos homens
negros e dá
o melhor de
si para lidar
com elas.
Ele combate
outros racistas.
Ele insiste
em dar uma
educação
acima da média
para crianças
negras, para
compensar
os anos em
que faltou
escola para
essas crianças.
Ele dá
recomendações
para que homens
negros consigam
empréstimos
bancários.
Ele dá
apoio a candidatos
negros em
seu distrito
através
de ajuda financeira
e com seu
voto. Você
acha que os
negros se
importam que
ele seja tão
racista quanto
antes em seu
íntimo?
Essencialmente,
exploração
é hábito.
Se você
consegue controlar
seus hábitos,
fazer com
que seja “natural”
ter hábitos
contrários,
já
é um
grande passo.
Se você
lava a louça,
arruma a casa,
e toma a atitude
de que não
se sente menos
“homem”
por fazê-lo,
você
estará
ajudando a
estabelecer
novos hábitos.
Duas gerações
sentindo que
têm
que parecer
não-racistas
o tempo inteiro
e a terceira
geração
não
será
racista de
fato. Então
finja ser
não-sexista,
e continue
fingindo.
Pense nisso
como um jogo.
Em seus pensamentos
íntimos,
pode continuar
pensando que
você
é superior
às
mulheres.
Enquanto você
representar
de forma convincente
– lavando
a louça,
fazendo as
compras, arrumando
a casa, cuidando
das crianças
– você
estará
abrindo precedentes,
especialmente
para homens
como você,
que tem certa
pose de “machão”.
A questão
é:
eu não
acredito nisso.
Eu não
acredito que
você
realmente
faça
o que diz.
Uma coisa
é lavar
a louça,
trocar fraldas
dia e noite
é outra.
Gerassi
—
Bem, eu não
tenho filhos...
Beauvoir
— Por
que não?
Porque você
escolheu não
tê-los.
Acha que as
mães
que você
conhece escolheram
ter filhos?
Ou elas foram
intimidadas
a tê-los?
Ou, em termos
mais sutis,
elas foram
criadas para
pensar que
é natural
e normal e
próprio
da mulher
ter filhos
e, por isso,
escolheram
tê-los?
Esses são
os valores
que têm
que mudar.
Gerassi
—
Certo. E é
por isso,
e eu compreendo,
que muitas
feministas
insistem em
ser separatistas.
Mas em termos
de revolução,
tanto a delas
quanto a minha,
será
que podemos
ganhar se
nos separarmos
em dois grupos
totalmente
diferentes?
Será
que o movimento
feminista
conseguirá
alcançar
seu objetivo
excluindo
os homens
de sua luta?
Até
hoje, a parte
dominante
do movimento
das mulheres,
aqui na França,
e isso também
é verdade
para os Estados
Unidos, é
separatista.
Beauvoir
— Só
um minuto.
Nós
temos que
investigar
o porquê
de elas serem
separatistas.
Não
posso falar
pelos Estados
Unidos, mas
aqui na França
há
muitos grupos,
grupos de
conscientização,
dos quais
os homens
são
excluídos
porque as
militantes
acham muito
importante
redescobrir
sua identidade
como mulheres.
Elas só
podem fazê-lo
conversando
entre elas,
contando entre
si coisas
que elas nunca
ousariam falar
na frente
dos maridos,
amantes, irmãos,
pais, ou qualquer
outro representante
do poder masculino.
A necessidade
de falar com
a intensidade
e honestidade
desejada só
pode ser realizada
dessa maneira.
E elas têm
conseguido
se comunicar
com uma profundidade
que nunca
pensei que
fosse possível
quando eu
tinha 25 anos.
Até
mesmo quando
eu estava
entre minhas
amigas mulheres
mais íntimas
naquela época,
problemas
verdadeiramente
femininos
nunca eram
discutidos.
Então
agora, pela
primeira vez,
por causa
desses grupos
de conscientização,
e por causa
da força
do desejo
de confrontar
genuinamente
os problemas
femininos
dentro desses
grupos, amizades
verdadeiras
entre mulheres
se desenvolveram.
Eu quero dizer,
no passado,
na minha juventude,
até
bem recentemente,
as mulheres
não
costumavam
se tornar
amigas de
verdade de
outras mulheres.
Elas se viam
umas às
outras como
rivais, até
mesmo inimigas,
ou, na melhor
das hipóteses,
como concorrentes.
Atualmente,
sobretudo
como resultado
desses grupos
de conscientização,
as mulheres
não
se tornaram
apenas capazes
de construir
amizades verdadeiras
entre si,
elas também
aprenderam
a ser calorosas,
abertas, profundamente
ternas umas
com as outras:
elas estão
transformando
irmandade
e fraternidade
em realidade
— e
sem tornar
esse relacionamento
dependente
de uma sexualidade
lésbica.
É claro,
há
muitas batalhas,
até
mesmo batalhas
estritamente
feministas
com impacto
social, das
quais as mulheres
esperam que
os homens
participem,
e muitos têm
participado.
Estou pensando,
por exemplo,
na luta pela
legalização
do aborto
aqui na França.
Quando organizamos
a primeira
demonstração
de peso pela
legalização
do aborto
há
três
ou quatro
anos, lembro
bem da grande
quantidade
de homens
presentes.
Isso não
quer dizer
que eles não
fossem sexistas:
para extrair
o que foi
inculcado
no padrão
de comportamento
e sistema
de valores
de uma pessoa
desde a primeira
infância
leva-se anos,
décadas.
Mas aqueles
eram homens
que, pelo
menos, estavam
cientes do
sexismo na
sociedade
e tomaram
uma posição
política
contra isso.
Nessas ocasiões,
os homens
são
bem-vindos,
até
mesmo encorajados,
a aderir à
luta.
Gerassi
—
Mas também
há
muitos grupos,
pelo menos
aqui na França,
que proclamam
seu separatismo
com orgulho
e definem
sua luta como
estritamente
lésbica.
Beauvoir
— Sejamos
precisos.
Dentro do
MLF [Movimento
de Libertação
da Mulher]
há,
sim, muitos
grupos que
se denominam
lésbicos.
Muitas dessas
mulheres,
graças
ao MLF e aos
grupos de
conscientização,
podem dizer
agora abertamente
que são
lésbicas,
e isso é
ótimo.
Não
costumava
ser assim.
Há
outras mulheres
que se tornaram
lésbicas
por uma espécie
de compromisso
político:
isto é,
elas acham
que é
uma atitude
política
ser lésbica;
dentro da
luta de sexos,
isso seria
mais ou menos
o equivalente
aos princípios
do black
power
na luta racial.
E é
verdade que
essas mulheres
tendem a ser
mais dogmáticas
com relação
à exclusão
dos homens
de sua luta.
Mas isso não
significa
que elas ignorem
as numerosas
lutas que
estão
sendo travadas
por todo o
mundo contra
a opressão.
Por exemplo,
quando Pierre
Overney, o
jovem militante
maoísta,
foi assassinado
a sangue frio
por um policial
de uma fábrica
da Renault
por não
dispersar
durante uma
manifestação,
e toda a esquerda
organizou
uma marcha
de protesto
em Paris,
todas as assim
chamadas separatistas
lésbicas
radicais aderiram
à manifestação
e levaram
flores ao
seu túmulo.
Isso, por
outro lado,
não
significa
que elas expressaram
sua solidariedade
por Overney,
o homem, mas
que elas se
identificaram
com o protesto
contra o Estado
que explora
e comete abusos
contra as
pessoas —
homens e mulheres.
Gerassi
—
Uma das conseqüências
da libertação
das mulheres,
de acordo
com pesquisas
recentes realizadas
em campus
universitários
dos Estados
Unidos, é
que os casos
de impotência
masculina
aumentaram
bastante,
especialmente
entre os homens
jovens que
tentam confrontar
seu sexismo...
Beauvoir
— A
culpa é
deles mesmos.
Eles tentam
representar
papéis...
Gerassi
—
Mas precisamente,
eles tomaram
consciência
de que representavam
papéis,
de que era
fácil
ser machão
e fazer acreditarem
que eram tipos
egoístas,
viris, quando,
na realidade,
eles agora
notaram que
freqüentemente
tinham que
fazer amor
ou tentar
seduzir a
mulher porque
era isso que
se esperava
deles, enquanto
agora...
Beauvoir
— Ao
tomar consciência
do papel que
eles representavam,
que, contudo,
os satisfazia
— nos
dois aspectos,
isto é,
era fácil
e os satisfazia
sexualmente
— enquanto
agora têm
que se preocupar
em satisfazer
a mulher,
eles não
conseguem
satisfazer
a si mesmos.
Uma pena.
Quero dizer,
se sentissem
uma afeição
genuína
pelas mulheres
que estivessem
com eles,
se fossem
honestos consigo
mesmos e com
suas parceiras,
automaticamente
pensariam
em satisfazer
aos dois.
Agora eles
estão
preocupados
em serem taxados
de sexistas
se não
satisfizerem
a mulher,
então
não
conseguem
nem ter relações.
Mas ainda
assim é
uma representação,
não
é?
Esses homens
são
impotentes
por causa
da contradição
em que vivem.
É uma
pena que é
esse grupo
de homens,
que pelo menos
está
ciente do
sexismo, que
mais sofra
com o movimento
feminista,
enquanto a
maioria dos
homens tira
vantagem disso,
tornando a
vida das mulheres
mais intolerável...
Gerassi
—
Tira vantagem?
Beauvoir
— Agora
há
pouco estávamos
conversando
sobre como
o MLF ajudou
as mulheres
a se tornarem
fraternas,
afetuosas
umas com as
outras, e
etc. Isso
pode ter causado
a impressão
de que acho
que as mulheres
estão
em uma situação
melhor agora.
Mas não.
A luta está
só
começando
e, nas fases
iniciais,
ela torna
a vida mais
difícil.
Por causa
da publicidade,
a palavra
“libertação”
está
na ponta da
língua
de cada homem,
estando eles
cientes ou
não
da opressão
sexual que
as mulheres
sofrem. A
atitude generalizada
dos homens
agora é
“bem,
já
que vocês
foram libertadas,
vamos para
a cama”.
Em outras
palavras,
os homens
agora estão
muito mais
agressivos,
vulgares,
violentos.
Na minha juventude,
nós
podíamos
passear por
Montparnasse
ou sentar
em cafés
sem sermos
molestadas.
Oh, a gente
recebia sorrisos,
acenos, olhares,
e etc. Mas
agora é
impossível
uma mulher
sentar sozinha
em um café
para ler um
livro. E se
ela é
categórica
em ser deixada
sozinha quando
um homem a
acossa, o
comentário
deste ao partir
é,
freqüentemente,
vadia ou puta.
Há
muito mais
estupro agora.
Em geral,
a agressividade
e hostilidade
masculinas
se tornaram
tão
comuns, que
nenhuma mulher
se sente à
vontade em
Paris, e pelo
que tenho
ouvido, tampouco
nas cidades
dos Estados
Unidos. A
não
ser que, é
claro, as
mulheres fiquem
em casa. E
é isso
que está
por trás
dessa agressividade
masculina:
a ameaça
que, aos olhos
dos homens,
a libertação
das mulheres
representa
trouxe à
tona suas
inseguranças;
por isso essa
raiva, que
tem como resultado
a tendência
de se comportar
como se só
as mulheres
que ficam
em casa são
“puras”,
enquanto as
outras são
fáceis.
Quando as
mulheres não
se mostram
tão
fáceis
assim, os
homens se
sentem pessoalmente
desafiados,
por assim
dizer. Ficam
com a idéia
fixa de “pegar”
a mulher.
Gerassi
—
Então
o que aconteceu
com o mito,
que todo francês
sustentava,
mas que, é
claro, nunca
foi verdade,
de que fazer
amor é
uma arte e
que ele era
o maior artista
de todos?
Beauvoir
— Exceto
em algumas
camadas muito
ricas e parasitas
da sociedade,
o mito está
morto. Ultimamente,
os franceses
se comportam
como os homens
norte-americanos
ou italianos:
eles só
querem saber
de “marcar
pontos”,
como se diz
por aí.
E com exceção
de alguns
poucos homens
que tentam
lidar com
seu sexismo,
eles têm
a atitude
de que quanto
mais livre
a mulher alega
ser, isto
é,
quanto mais
a mulher tenta
batalhar para
sobressair
financeira
e profissionalmente
no mundo deles,
o mundo dos
homens, mais
fácil
deveria ser
levá-la
para a cama.
Gerassi
—
A conversa
sobre mulheres
serem mais
livres me
intriga. Em
nossa sociedade,
a liberdade
é alcançada
com dinheiro
e poder. As
mulheres têm
mais poder
hoje, depois
de quase uma
década
do movimento
feminista?
Beauvoir
— No
sentido em
que você
pergunta,
não.
As intelectuais,
mulheres jovens
que estão
dispostas
a correr o
risco de serem
marginalizadas,
as filhas
de ricos,
quando estão
dispostas
e são
capazes de
romper com
os valores
de seus pais:
essas mulheres
sim, são
mais livres.
Isto é,
por causa
de seu nível
de educação,
estilo de
vida, ou recursos
financeiros,
essas mulheres
conseguem
escapar de
uma sociedade
competitiva,
viver em comunidades
ou à
margem, e
desenvolver
relações
com outras
mulheres similares
a elas ou
homens sensíveis
aos seus problemas,
e, dessa forma,
se sentirem
mais livres.
Em outras
palavras,
como indivíduos,
as mulheres
que podem
se sustentar,
seja lá
por qual motivo,
conseguem
se sentir
mais livres.
Mas como classe,
as mulheres
certamente
não
são
mais livres,
precisamente
porque, como
você
diz, elas
não
têm
poder econômico.
Atualmente,
há
todo o tipo
de estatística
para provar
que o número
de mulheres
advogadas,
médicas,
publicitárias,
etc., está
crescendo.
Mas essas
estatísticas
são
enganosas.
O número
de advogadas
e executivas
poderosas
não
aumentou.
Quantas advogadas
podem pegar
um telefone
e ligar para
um juiz ou
oficial do
governo para
marcar um
horário
ou pedir favores
especiais?
Essas mulheres
têm
que operar
através
de seus equivalentes
homens, já
estabelecidos.
Médicas?
Quantas são
cirurgiãs,
diretoras
de hospital?
Mulheres no
governo? Sim,
poucas. Na
França
nós
temos duas.
Uma, séria,
trabalhadora,
Simone Weil,
é ministra
da saúde.
A outra, Françoise
Giroud, que
é a
ministra responsável
pelas questões
femininas
é basicamente
uma peça
de mostruário,
destinada
a aplacar
as necessidades
das mulheres
burguesas
de integração
no sistema.
Mas quantas
mulheres controlam
verbas no
Senado? Quantas
mulheres controlam
a política
editorial
de jornais?
Quantas são
juízas?
Quantas são
presidentes
de banco,
capazes de
financiar
empresas?
Só
porque há
muito mais
mulheres em
posições
de nível
médio,
como os jornalistas
dizem, isso
não
quer dizer
que elas têm
poder. E até
mesmo essas
mulheres têm
que jogar
o jogo dos
homens para
serem bem-sucedidas.
Agora, isso
não
quer dizer
que eu não
acredito que
as mulheres
tenham feito
progresso
na luta. Mas
o progresso
é resultado
da ação
de massa.
Pense na nova
lei de aborto
proposta por
Simone Weil,
por exemplo.
Os abortos
não
serão
cobertos pelo
programa de
saúde
nacional e,
portanto,
serão
mais acessíveis
para as ricas
do que para
as pobres,
mas ainda
assim, a lei
certamente
é um
grande passo.
No entanto,
apesar de
toda a seriedade
com que Simone
Weil lutou
por essa lei,
a razão
pela qual
ela pôde
ser apresentada
é porque
milhares de
mulheres se
mobilizaram
em toda a
França
por essa lei,
porque milhares
de mulheres
assumiram
publicamente
que fizeram
abortos (forçando
o governo
a processá-las
ou a mudar
a lei), porque
milhares de
médicos
e de parteiras
correram o
risco de serem
processados
ao admitir
que tinham
realizado
abortos, porque
alguns foram
processados
e lutaram
no tribunal
pela causa,
etc. O que
estou dizendo
é que,
em ações
de massa,
as mulheres
têm
poder. Quanto
mais as mulheres
tomarem consciência
da necessidade
dessas ações
de massa,
mais progresso
elas alcançarão.
E, voltando
ao caso das
mulheres que
podem financiar
a busca da
liberação
individual,
quanto mais
ela puder
influenciar
suas amigas
e irmãs,
mais essa
conscientização
se espalhará,
o que, por
outro lado,
quando frustrada
pelo sistema,
estimulará
a ação
de massa.
É claro,
quanto mais
essa conscientização
se espalhar,
mais agressivos
e violentos
os homens
se tornarão.
Mas então,
quanto mais
agressivos
forem os homens,
mais as mulheres
precisarão
de outras
mulheres para
revidar, isto
é,
maior será
a necessidade
de ações
de massa.
Hoje em dia,
a maioria
dos operários
do mundo capitalista
está
ciente da
luta de classes,
quer eles
se denominem
Marxistas
ou não,
de fato, quer
eles sequer
já
tenham ouvido
falar de Marx
ou não.
E assim deve
acontecer
na luta de
sexos. E acontecerá.
Gerassi
—
Você
me disse ano
passado que
estava pensando
em escrever
outro livro
sobre mulheres,
uma espécie
de seqüência
de O Segundo
Sexo.
Você
vai escrevê-lo?
Beauvoir
— Não.
Em primeiro
lugar, esse
tipo de trabalho
teria que
resultar de
um esforço
coletivo.
E, além
disso, ele
teria que
se basear
mais na prática
do que na
teoria. O
Segundo Sexo
foi pelo caminho
inverso. Agora,
isso não
é mais
válido.
É na
prática
que hoje podemos
ver como a
luta de classes
e a luta de
sexos se intercalam,
ou, pelo menos,
como elas
podem ser
articuladas.
Mas isso vale
para todas
as lutas atuais:
nós
temos que
formular nossas
teorias com
base na prática,
e não
o contrário.
O que se faz
realmente
necessário
é que
todo um grupo
de mulheres,
de todo tipo
de país,
reúna
suas experiências
de vida e
que, a partir
dessas experiências,
nós
possamos identificar
os padrões
com os quais
as mulheres
lidam em todos
os lugares.
E tem mais,
essa informação
deveria ser
coletada de
todas as classes,
e isso é
duas vezes
mais difícil.
Afinal, as
mulheres que
travam a luta
pela libertação
hoje em dia
são,
em sua maioria,
intelectuais
burguesas;
as esposas
de operários
e até
mesmo as operárias
se mantêm
presas ao
sistema de
valor da classe
média.
Tente, por
exemplo, conversar
com uma operária
sobre os direitos
das prostitutas
e o respeito
que se deve
a elas. A
maioria das
operárias
ficaria chocada
com essa idéia.
Conscientizar
as operárias
é um
processo muito
lento e necessita
de muito tato.
Eu sei que
há
extremistas
do MLF que
estão
tentando fazer
com que as
esposas de
operários
se rebelem
contra seus
maridos, considerando-os
opressores
masculinos.
Acho que isso
é um
erro. Uma
esposa de
operário,
aqui na França
pelo menos,
não
hesitará
em responder:
“mas
o meu inimigo
não
é o
meu marido,
e sim meu
patrão”.
Até
mesmo se ela
tem que lavar
as meias do
marido e fazer
o jantar dele
depois de
também
ela ter passado
todo o dia
em alguma
fábrica.
É o
mesmo nos
Estados Unidos,
onde as mulheres
negras se
recusaram
a dar ouvidos
às
defensoras
do movimento
de libertação
das mulheres
porque elas
eram brancas.
Essas mulheres
negras continuaram
apoiando seus
maridos negros
apesar da
exploração,
simplesmente
porque as
pessoas que
tentaram conscientizá-las
sobre a exploração
eram brancas.
Gradualmente,
no entanto,
uma feminista
burguesa consegue
atingir uma
esposa de
operário,
assim como
nos Estados
Unidos, hoje
em dia, há
algumas mulheres
negras —
muito poucas,
eu admito
— que
dizem, “não,
nós
não
queremos nos
submeter à
opressão
de nossos
homens sob
o pretexto
de que eles
são
negros e de
que nós
temos que
lutar juntos
contra os
brancos; não,
isso não
é motivo
para que nossos
homens nos
oprimam, só
porque eles
são
nossos homens
negros”.
No entanto,
a luta de
classes pode
encorajar
e, de fato,
encoraja e
promove a
luta de sexos
de maneiras
bem concretas.
Nos últimos
anos, por
exemplo, houve
muitas greves
aqui na França
em fábricas
onde os operários
eram quase
todos do sexo
feminino.
Estou pensando
na greve da
indústria
têxtil
em Troyes,
no norte do
país,
ou na Nouvelles
Galeries em
Thionville,
ou a famosa
greve da Lip.
Em cada caso,
as operárias
não
só
adquiriram
uma nova consciência
como também
passaram a
acreditar
mais em seu
poder, e essa
atitude abalou
o sistema
machista que
elas vivenciavam
em casa. Na
Lip, por exemplo,
as mulheres
tomaram a
fábrica
e se recusaram
a evacuar
o prédio
apesar das
ameaças
da polícia
de usar a
força
para tirá-las
de lá.
A princípio,
seus maridos
ficaram muito
orgulhosos
de suas esposas
militantes.
Os homens
levaram comida,
ajudaram a
fazer cartazes
para o piquete,
etc. Mas quando
as mulheres
decidiram
ser totalmente
iguais aos
poucos homens
que também
trabalhavam
na Lip e que
também
participavam
da greve,
os problemas
começaram
a surgir.
Os grevistas
da Lip decidiram
organizar
turnos para
vigiar a fábrica
e impedir
que a polícia
invadisse.
Isso significava
serviço
noturno. Oh,
oh. Então,
de repente,
os maridos
das grevistas
ficaram incomodados.
“Vocês
podem fazer
greve e piquete
o quanto quiserem,”
eles disseram,
“mas
somente durante
o dia, à
noite não.
O que, serviço
de vigilância
noturno? Ah
não!
Dormir em
turnos em
grandes quartos
coletivos?
Ah não.”
Naturalmente,
as operárias
resistiram.
Elas tinham
lutado por
igualdade,
não
iriam desistir
agora. Assim,
elas se envolveram
com duas lutas:
a luta de
classes contra
os patrões
da Lip, a
polícia,
o governo,
etc., por
um lado, e
a luta de
sexos contra
seus próprios
maridos. Sindicalistas
da Lip contaram
que as mulheres
se transformaram
completamente
depois da
greve, dizendo
“uma
coisa que
eu aprendi
disso tudo
foi que nunca
mais eu vou
deixar meu
marido fazer
as vezes de
patrão
em casa. Agora
eu sou contra
todos os patrões.”
Gerassi
—
A sua conscientização
sobre a velhice
mudou quando
você
escreveu sobre
isso, da mesma
forma que
a sua conscientização
sobre ser
mulher mudou
ao escrever
O Segundo
Sexo?
Beauvoir
— Na
verdade, não.
Eu descobri
muitas coisas;
aprendi muito
sobre povos
antigos. Mas
não
tomei consciência
de minha velhice
ao escrever
o livro; na
verdade foi
a constatação
de que eu
estava velha
que me motivou
a escrever
o livro, a
princípio.
Mas agora
consigo me
relacionar
muito melhor
com os idosos
do que antes.
Eu costumava
ser muito
mais severa.
Agora compreendo
que, quando
uma pessoa
idosa está
muito suscetível,
muito egoísta,
ela está
apenas se
protegendo,
criando mecanismos
de defesa.
Mas, veja
bem, uma mulher
pode passar
a vida toda
se recusando
a encarar
o fato de
que ela é
fundamentalmente,
em termos
de valores,
experiência,
e filosofia
de vida, diferente
dos homens.
Mas é
muito difícil
não
tomar consciência
de que se
está
envelhecendo.
Chega um momento
em que você
simplesmente
sabe que tem
que cruzar
a linha ou
que você
já
cruzou a linha.
Hoje sei que
nunca mais
serei capaz
de caminhar
pelas montanhas
a pé,
que nunca
mais andarei
de bicicleta,
que nunca
mais terei
relações
com um homem.
Eu tinha muito
medo, ou,
pelo menos,
era muito
apreensiva
com relação
à idade
madura antes
de alcançá-la.
Então,
quando ela
chegou, quando
eu soube que
havia cruzado
a linha, bem,
foi muito
mais fácil
do que eu
esperava.
É claro
que você
tem que parar
de olhar para
trás.
Mas acho que
viver dia
após
dia está
sendo muito
mais fácil
do que eu
pensava. Mas
eu soube que
tinha cruzado
a linha independente
da minha pesquisa
para o meu
livro sobre
a velhice.
Trabalhar
no livro simplesmente
me ensinou
a entender
os idosos
e a ser mais
tolerante.
Gerassi
—
Em que você
está
trabalhando
agora?
Beauvoir
— Basicamente,
em nada. Estou
ajudando em
um roteiro
sobre, precisamente,
a velhice,
para um diretor
sueco. Vou
ajudar Sartre
com seu projeto
para televisão.
Você
sabe que ele
assinou um
contrato com
a televisão
nacional para
fazer dez
programas
de uma hora,
cada um, que
irão
ao ar a partir
de outubro.
Os programas
serão
sobre os 75
anos desse
século
e a relação
de Sartre
com os principais
eventos. Mas
não
tenho planos
de realizar
nenhum projeto
particular.
Isso também
é novo
para mim.
Eu costumava
ter todo tipo
de projetos
na minha cabeça,
mesmo quando
estava trabalhando
em algum livro
específico.
Gerassi
—
Você
escreveu que
teve uma vida
boa e não
se arrepende
de nada. Você
sabia que
há
muitos casais
que tomam
sua vida com
Sartre como
modelo, especialmente
no sentido
de que vocês
não
tinham ciúmes
um do outro,
que tinham
um relacionamento
aberto, e
que deu certo
por 45 anos?
Beauvoir
— Mas
é ridículo
nos usar como
modelo. As
pessoas têm
que encontrar
seu próprio
estilo, sua
própria
estrutura.
Sartre e eu
tivemos muita
sorte, mas
nossa criação
também
tinha sido
muito singular,
excepcional.
Nós
nos conhecemos
quando éramos
bem jovens.
Ele tinha
23 anos, eu
20. Nós
ainda não
estávamos
formados,
apesar de
já
estarmos moldados
para sermos
intelectuais,
com motivações
semelhantes.
Para nós
dois, a literatura
tinha substituído
a religião.
Gerassi
—
No entanto,
vocês
poderiam ter
competido,
se tornado
rivais...
Beauvoir
— É
verdade. Personalidades
semelhantes
com ambições
semelhantes
freqüentemente
competem entre
si. Mas nós
tínhamos
outra coisa
em comum:
havíamos
sido criados
de forma semelhante
em nossa juventude.
Nossas infâncias
tinham sido
muito sólidas,
muito seguras.
Isso significa
que nenhum
de nós
dois tinha
que provar
o que quer
que fosse
para nós
mesmos nem
para os outros.
Éramos
confiantes.
É como
se tudo estivesse
predestinado
desde o início.
Meus pais
agiam como
se nada no
universo pudesse
alterar o
curso normal
da minha vida,
que era ser
uma pequena
intelectual
burguesa.
O avô
de Sartre,
que o criou
— você
sabe que seu
pai morreu
quando ele
ainda era
um bebê
— se
comportava
da mesma forma,
absolutamente
convencido
de que Sartre
cresceria
para ser um
professor
universitário.
E assim aconteceu.
Dessa forma,
mesmo quando
ocorriam crises,
como quando
a mãe
de Sartre
se casou novamente
quando ele
tinha 12-13
anos, ou como
quando eu
tinha 14-15
anos e percebi
que meu pai
não
me amava mais
como eu esperava
que ele amasse,
a firmeza
de nossas
infâncias
nos fez exteriorizar
essas crises.
Foram eles
que mudaram,
não
nós.
Éramos
muito bem-estruturados
para nos sentirmos
inseguros.
Além
disso, independente
de algumas
divergências,
estávamos,
fundamentalmente,
de acordo
com os planos
traçados
para nós
por nossos
pais. Eles
queriam que
fôssemos
intelectuais,
que lêssemos,
estudássemos,
ensinássemos,
e nós
concordávamos,
portanto,
foi o que
fizemos. Assim,
quando Sartre
e eu nos conhecemos,
não
apenas nossos
passados se
fundiram como
também
nossa firmeza,
nossas convicções
individuais,
de que éramos
o que fomos
feitos para
ser. Nesse
contexto,
não
podíamos
ser rivais.
Então,
à medida
que o meu
relacionamento
com Sartre
se aprofundou,
me tornei
convicta de
que eu era
insubstituível
em sua vida,
e ele na minha.
Em outras
palavras,
nós
estávamos
totalmente
seguros de
que nosso
relacionamento
também
era totalmente
sólido,
novamente,
predestinado,
apesar de,
na época,
não
levarmos essa
palavra a
sério.
Quando se
é tão
confiante,
é fácil
não
sentir ciúmes.
Mas é
claro que
se eu achasse
que outra
mulher representasse
o mesmo papel
que eu na
vida de Sartre,
eu teria tido
ciúmes.
Gerassi
—
Como você
vê o
resto de sua
vida?
Beauvoir
— Eu
não
vejo. Imagino
que, em breve,
começarei
a escrever
novamente,
voltarei ao
trabalho,
mas ainda
não
tenho idéia
do que farei.
Sei que continuarei
a trabalhar
com as mulheres,
nos grupos
feministas,
na Liga das
Mulheres,
e que continuarei
a militar
de alguma
forma, da
forma que
eu puder,
na —
vamos chamá-la
assim —
luta revolucionária.
E sei que
permanecerei
com Sartre
até
que um de
nós
dois morra.
Mas, você
sabe, ele
está
com 70 anos
agora e eu
com 67.
Gerassi
—
Você
está
otimista?
Acha que as
mudanças
pelas quais
está
lutando se
realizarão?
Beauvoir
— Eu
não
sei. De qualquer
forma, não
durante a
minha vida.
Talvez em
quatro gerações.
Não
sei quanto
à revolução.
Mas as mudanças
pelas quais
as mulheres
estão
lutando, essas
sim, tenho
certeza de
que, a longo
prazo, as
mulheres vencerão.
Interviewed
by John Gerassi,
Society ,
Jan.-Feb.
1976, pp.
79-85
Copyright
© 1995
by Transaction
Publishers;
all rights
reserved
Reprinted
by permission
of Transaction
Publishers.
John Gerassi,
'The Second
Sex 25 Years
on' in Society
Jan/Feb 1976
pp 79-85.