PREFÁCIO DO LIVRO A BASTARDA, de Violette Leduc
Simone de Beauvoir
| 1964
tradução de Vera Mourão

Quando, no início de 1945, comecei a ler o manuscrito de Violette Leduc — "Minha mãe nunca me deu a mão" — fiquei imediatamente arrebatada: um temperamento, um estilo. Camus logo acolheu L'Asphyxie (A Asfixia) em sua coleção "Espoir". Genet, Jouhandeau, Sartre saudaram o nascimento de uma escritora. Seu talento se confirmou nos livros que se seguiram. Críticos exigentes o reconheceram abertamente. O público não reagiu. Malgrado um considerável sucesso de crítica, Violette Leduc permaneceu desconhecida.

Dizem que não existe mais autor desconhecido. Qualquer um ou quase isso consegue editar. Pudera, a mediocridade pulula. A boa semente é abafada pelo joio. O êxito depende, na maior parte do tempo, de um golpe de sorte. Entretanto, a própria má sorte tem as suas razões. Violette Leduc não quer agradar. Não agrada e até assusta. Os títulos de seus livros — L' Asphyxie (A Asfixia), L'Affamée, (A Faminta), Ravages (Destroços) — não são divertidos. Ao folheá-los, entrevemos um mundo pleno de ruído e raiva, onde o amor muitas vezes traz o nome de ódio, onde a paixão de viver se expande em gritos de desespero. Um mundo devastado pela solidão e que de longe parece árido. Não o é, porém. "Sou um deserto que monologa", me escreveu um dia Violette Leduc. Nos desertos encontrei belezas incontáveis. Quem quer que nos fale do fundo de sua solidão fala de nós. O homem mais mundano ou o mais militante tem seus recônditos onde ninguém se aventura, nem mesmo ele, mas que lá estão: a noite da infância, os fracassos, as renúncias, a brusca emoção de uma nuvem no céu. Surpreender uma paisagem, um ser, tais como existem em nossa ausência: sonho impossível que todos nós acariciamos. Se lemos A Bastarda, o sonho se realiza, ou quase. Uma mulher desce ao mais secreto de si mesma e se revela com uma sinceridade intrépida, como se não houvesse ninguém para escutá-la.

"Meu caso não é único", diz Violette Leduc, começando esta narrativa. Não, mas é singular e significativo. Ele demonstra, com excepcional clareza, que uma vida é a retomada de um destino por uma liberdade.
Desde as primeiras páginas, a autora nos esmaga sob o peso das fatalidades que a talharam. Durante toda a infância, a mãe lhe insuflou um irremediável sentimento de culpa, culpa de ter nascido, de ter saúde frágil, de custar dinheiro, de ser mulher e fadada aos males da condição feminina. Viu seu reflexo nos dois olhos azuis e duros: um erro vivo. Sua avó, com ternura, preservou-a da destruição total. Graças a ela, Violette Leduc pôde salvaguardar uma vitalidade e um fundo de equilíbrio que, nos piores momentos de sua história, a impediram de soçobrar. Mas o papel do "anjo Fidéline" era apenas secundário, e ela morreu cedo. O outro se encarnava na mãe de olhar de aço. Esmagada por ela a criança quis se anular totalmente. Idolatrou-a, gravou em si mesma a sua lei: fugir dos homens. Votou-se a servi-la e lhe ofereceu o seu futuro. A mãe se casou. A menininha se abalou com essa traição. Daí em diante, teve medo de todas as consciências, porque detinham o poder de transformá-la em monstro, de todas as presenças porque arriscavam a se desmanchar em ausência. Refugiou-se em si mesma. Por angústia, por decepção, por rancor, escolheu o narcisismo, o egocentrismo, a solidão.

"Minha feiúra me conservará isolada até a morte", escreveu Violette Leduc. Essa interpretação não me satisfaz. A mulher que A Bastarda retrata interessa a modistas, grandes costureiros — Lelong, Fath — a tal ponto que eles se comprazem em lhe oferecer suas mais audaciosas criações. Inspira uma paixão em Isabelle. Em Hermine, um amor ardente que dura anos. Em Gabriel, sentimentos bastante violentos que o levam a se casar com ela. Em Maurice Sachs, uma firme simpatia. Seu "nariz grande" não desencoraja a camaradagem nem a amizade. Se algumas vezes ela faz rir, não é por causa dele. Em sua roupa, no penteado, em sua fisionomia, há qualquer coisa de provocante e insólito. A zombaria busca afirmação. Sua feiúra não comandou seu destino, mas o simbolizou. Ela procurou no espelho razões para ter pena de si própria.

Porque, ao sair da adolescência, achou-se presa em uma máquina infernal. Essa solidão da qual fez seu quinhão, ela a detesta, e porque a detesta, nela se chafurda. Nem eremita, nem exilada, sua desgraça é não conhecer com ninguém uma relação de reciprocidade: ou o outro é para ela um objeto, ou ela se faz objeto para ele. Nos diálogos que escreve transparece sua impossibilidade de se comunicar. Os interlocutores falam um junto ao outro e não conversam; cada qual tem uma linguagem própria, não se compreendem. Mesmo no amor, sobretudo no amor, a troca é impossível, pois Violette Leduc não aceita uma dualidade em que a ameaça da separação esteja latente. Toda ruptura ressuscita de maneira intolerável o drama de seus quatorze anos: o casamento de sua mãe. "Não quero que me deixem": é o leitmotiv de Ravages. É preciso, pois, que o casal seja um só ser. Em alguns momentos, Violette Leduc pretende se aniquilar, faz o jogo do masoquismo. Tem, entretanto, demasiado vigor e lucidez para não se manter nele por muito tempo. Ela é quem devorará o ser amado.

Ciumenta, exclusivista, agüenta com dificuldade a afeição de Hermine pela família, as relações de Gabriel com a mãe e a irmã, suas amizades de homem. Exige que sua amiga, terminado o dia de trabalho, lhe consagre todos os instantes. Hermine cozinha e costura para ela, escuta-lhe as lamentações, se afoga com ela no prazer e cede a todos os seus caprichos. Hermine nada reclama, salvo, à noite, o direito de dormir. Insone, Violette se insurge contra essa deserção. Mais tarde, também proíbe Gabriel de dormir. "Odeio os que dormem." Sacode-os, desperta-os e os obriga, através de lágrimas ou de carinhos, a manter os olhos abertos. Menos dócil que Hermine, Gabriel pretende exercer sua profissão e dispor do tempo a seu bel-prazer. Cada manhã, quando quer partir, Violette tenta por todos os meios reconduzi-lo ao leito. Ela atribui essa tirania a suas "insaciáveis entranhas". Na verdade, deseja bem outra coisa que a volúpia: a posse. Quando faz Gabriel gozar, quando o recebe nela, ele lhe pertence, a união se realiza. Quando ele sai de seus braços, é novamente este inimigo: um outro.

"Miragens idênticas da presença e da ausência". A ausência é um suplício: a angustiante espera de uma presença. A presença é um intermédio entre duas ausências, um martírio. Violette Leduc detesta seus carrascos. Eles têm — como todo mundo — uma convivência consigo mesmos que a exclui. E também certas qualidades de que ela é desprovida e por isso se sente lesada. Inveja a boa saúde de Hermine, seu equilíbrio, sua atividade, sua alegria. Sente inveja de Gabriel porque é homem. Não pode destruir seus privilégios a não ser destruindo completamente sua pessoa. Mesmo assim, ela tenta.

"Você quer me destruir", diz Gabriel. Sim. A fim de suprimir o que os diferencia e para se vingar. "Eu me vingava de sua presença perfeita demais", dizia a respeito de Hermine. Quando um, depois o outro, deixam-na para sempre, ela se desespera; entretanto atinge seu objetivo. Secretamente desejava quebrar essa ligação, esse casamento. Pelo prazer do fracasso. Porque visa a sua própria destruição. É "o louva-a-deus devorando a si mesmo". Mas tem bastante saúde, para trabalhar apenas para sua ruína. Na realidade, ela perde a fim de perder e ganhar ao mesmo tempo. Suas rupturas são reconquistas próprias.

Entre tempestades e bonanças, reserva sempre — esta é sua força — o cuidado de se preservar. Nunca se entrega totalmente. Após algumas semanas ardentes, foge logo da paixão de Isabelle. No início de sua vida em comum com Hermine, luta para continuar a trabalhar e prover suas necessidades. Vencida pelo médico, por sua mãe e Hermine, a dependência lhe pesa. Foge disso graças à camaradagem ambígua que entretém com Gabriel e que durante longo tempo permanece clandestina. Casando-se com ele, contesta esse laço consumindo-se de desejo por Maurice Sachs. Quando Sachs, tendo partido como trabalhador livre para Hamburgo, quer voltar à aldeia onde tinham passado alguns meses juntos, ela se recusa a ajudá-lo. Carregando com a força de seus pulsos malas cheias de manteiga e de pernis, amontoando dinheiro, exausta e vitoriosa, conhece a embriaguez de se superar. Sachs perturbaria o universo no qual ela reina, rígida e altiva como um cipreste.

O próximo sempre a frustra, fere, humilha. Quando luta com o mundo, sem socorro, quando trabalha e tem êxito, a alegria transporta-a. Essa choramingas é também a viajante que no Trésors à Prendre percorre a França, mochila às costas, inebriada por suas descobertas e pela própria energia. A mulher que se basta: é sob essa imagem que Violette Leduc se satisfaz. "Eu atingia o extremo de meus esforços, enfim, eu existia."

Mas ela precisa amar. Tem necessidade de alguém a quem dedicar seus enlevos, suas tristezas, seus entusiasmos. O ideal seria consagrar-se a um ser que não a embarace com sua presença, a quem possa dar tudo sem que ele lhe tire nada. Assim amou Fidéline — "Minha pequena rainha que não envelheceu" —, maravilhosamente embalsamada em sua memória. E Isabelle, que se transformou, no fundo do passado, em um ídolo fascinante. Invoca-as, acalenta-se com a imagem delas, prosterna-se a seus pés. Por Hermine ausente e já perdida, seu coração enlouquece. Sente uma paixão repentina por Maurice Sachs e, mais tarde, por dois outros homossexuais. O obstáculo que a separa deles é tão intransponível quanto um ano-luz. Na companhia deles "se inflama no braseiro do impossível". Há voluptuosidade em um desejo insatisfeito quando este não contém esperança alguma. A mulher que em L'Affamée Violette Leduc denomina Madame não deixa de ser menos inacessível. Em La vieille fille et le mort (A Solteirona e o Defunto), levou ao paroxismo o fantasma de um amor sem correspondência, onde o outro seria reduzido à passividade das coisas. A Srta. Clarisse, solteirona de cinqüenta anos — não por falta de interesse dos homens, mas porque os desdenhou — encontra uma tarde, em um café junto à sua mercearia, um desconhecido morto. Cobre-o de cuidados e ternura sem que ele atrapalhe suas expansões, fala-lhe e inventa suas respostas. A ilusão, porém, se dissipa, pois que ele nada recebeu, ela não deu nada. Não achou conforto nele e se reencontra só diante de um cadáver. Os amores a distância maltratam tanto Violette Leduc quanto os amores compartilhados.

"Jamais você estará satisfeita", lhe diz Hermine. Hermine mata-a esmagando-a de carinhos, e Gabriel, se recusando. A presença perturba-a, a ausência arrasa-a. A chave dessa maldição, ela nos entrega: "Vim ao mundo, fiz o juramento de possuir a paixão do impossível." Essa paixão possuiu-a no dia em que, traída pela mãe, refugiou-se junto ao fantasma do pai desconhecido. Esse pai tinha existido, e era um mito. Penetrando em seu universo, penetrou em uma lenda. Escolheu o imaginário, que é uma das faces do impossível. Ele tinha sido rico e refinado. Ela ressuscitou seus gostos, sem esperança de satisfazê-los. Entre os vinte e os trinta anos, cobiçou desvairadamente o luxo de Paris: móveis, vestidos, jóias, belos carros. Mas não esboçou o menor gesto para obtê-los: "O que eu queria? Não fazer nada e possuir tudo." O sonho da grandeza contava mais que a própria grandeza. Ela se alimenta de símbolos. Transfigura os instantes com ritos: o aperitivo tomado no subsolo com Hermine, o champagne bebido com a mãe pertencem a uma vida fictícia. Ela se mascara quando enfia, ao som de tambores irreais, o costume colante de Schiaparelli, e seu passeio nos grandes bulevares é uma paródia.

Essas tapeações, entretanto, não a satisfazem, pois conservou de sua infância camponesa a necessidade de coisas sólidas nas mãos, de sentir a terra sob os pés, de realizar atos de verdade. Fabricar a realidade com o imaginário é apanágio dos artistas e dos escritores. Ela se encaminhará em direção a essa saída.

Em suas relações com o próximo assumia apenas seu destino. Mas inventa-lhe um sentido imprevisto quando se orienta para a literatura. Tudo começou no dia em que entrou em uma livraria e pediu um livro de Jules Romains. Em sua narrativa, não valoriza a importância desse fato de que, na hora, não suspeitou evidentemente das conseqüências. Um leitor desatento verá em sua história nada mais que uma série de acasos. Trata-se, na verdade, de uma escolha que se mantém e se renova durante cerca de quinze anos antes de chegar a uma obra.

Enquanto viveu à sombra de sua mãe, Violette Leduc desprezou os livros. Preferia roubar couve atrás de uma charrete, colher verduras para os coelhos, conversar, viver. No dia em que se voltou para o pai, os livros — que ele amara tanto — fascinaram-na. Sólidos, brilhantes, eles continham, sob a bela capa lustrosa, mundos onde o impossível se torna possível. Comprou e devorou Mort de quelqu' un (Morte de um alguém). Romains. Duhamel. Gide. Não mais os largará. Quando se decide a trabalhar, põe um anúncio na Bibliographie de la France. Entra numa editora, redige notas sociais. Não ousa ainda sonhar em escrever livros, mas se nutre de rostos e de nomes famosos. Após seu rompimento com Hermine, vai trabalhar com uma empresária de cinema. Lê as sinopses, propõe seus desenvolvimentos. Assim desviou o curso de sua existência e provocou a chance que a fez encontrar Maurice Sachs. Ele se interessa por ela, aprecia suas cartas, aconselha-a a escrever. Ela principia por novelas e reportagens que envia a uma revista feminina. Mais tarde, cansado com a repetição de suas recordações da infância, ele lhe dirá: escreva-as. Surgirá L'Asphyxie.

Súbito, ela compreendeu que a criação literária poderia ser-lhe uma salvação. "Escreverei, abrirei os braços, abraçarei as árvores frutíferas, vou dá-las à minha folha de papel." Falar a um morto, a surdos, a coisas, é um jogo duro. O leitor cumpre a síntese impossível da ausência e da presença. "O mês de agosto hoje, leitor, é uma rosácea de calor. Eu a ofereço a você, de presente." Ele recebe tal presente sem alterar a solidão do autor. Escuta seu monólogo, não o responde, mas o justifica.

É preciso entretanto ter qualquer coisa a lhe dizer. Enamorada do impossível, Violette Leduc não perdeu, contudo, o contato com o mundo. Ao contrário, abraça-o para preencher sua solidão. Sua situação singular protege-a contra as visões pré-fabricadas. Sacudida do fracasso à nostalgia, nada considera pronto. Incansavelmente, interroga e recria com palavras o que descobriu. Tinha tanto a dizer que seu ouvinte fatigado lhe pôs uma caneta nas mãos.

Obcecada por si mesma, todas as suas obras — salvo Les Boutons Dorés (Os Botões Dourados) — são mais ou menos autobiográficas: lembranças, diário de um amor, ou antes de uma ausência; diário de uma viagem; romance que transpõe um período de sua vida; longa novela que põe em cena seus fantasmas; enfim, A Bastarda, que retoma e ultrapassa seus livros anteriores.

A riqueza de suas narrativas provém mais da ardente intensidade de sua memória que das circunstâncias. A cada momento ela, toda inteira, lá está através da espessura dos anos. Cada mulher amada ressuscita Isabelle em quem ressuscitava uma jovem mãe idolatrada. O avental azul de Fidéline ilumina todos os céus de verão. Às vezes a autora pula para o presente, nos convida a sentar a seu lado sobre as folhas de pinheiro. Assim anula o tempo, o passado toma as cores da hora que está soando. Uma colegial de cinqüenta e cinco anos traça palavras em um caderno. Também nos arrasta em delírios quando suas lembranças não são bastantes para lhe aclarar as emoções; então conjura a ausência através de fantasmagorias líricas e violentas. A vida vivida envolve a vida sonhada que transparece em filigrana nas narrativas mais despojadas.

Sua principal heroína é ela. Mas seus protagonistas existem intensamente. "Pontilhismo atroz do sentimento." Uma entonação da voz, um franzir de sobrancelhas, um silêncio, um suspiro, tudo é promessa ou recusa exacerbada, tudo adquire um relevo dramático para aquela que é apaixonadamente engajada em sua relação com os outros. A "atroz" preocupação que tem por seus menores gestos é sua felicidade de escritora. Faz com que vivam para nós em sua opacidade inquietante e seus detalhes minuciosos. A mãe, provocante e violenta, imperiosa e cúmplice, Fidéline, Isabelle, Hermine, Gabriel, Sachs, tão espantosos como nos seus próprios livros. Impossível esquecê-los.

Porque "nunca está satisfeita", permanece disponível, todo encontro pode aplacar sua fome ou