Quando,
no início
de 1945, comecei
a ler o manuscrito
de Violette
Leduc —
"Minha
mãe
nunca me deu
a mão"
— fiquei
imediatamente
arrebatada:
um temperamento,
um estilo.
Camus logo
acolheu L'Asphyxie
(A Asfixia)
em sua coleção
"Espoir".
Genet, Jouhandeau,
Sartre saudaram
o nascimento
de uma escritora.
Seu talento
se confirmou
nos livros
que se seguiram.
Críticos
exigentes
o reconheceram
abertamente.
O público
não
reagiu. Malgrado
um considerável
sucesso de
crítica,
Violette Leduc
permaneceu
desconhecida.
Dizem
que não
existe mais
autor desconhecido.
Qualquer um
ou quase isso
consegue editar.
Pudera, a
mediocridade
pulula. A
boa semente
é abafada
pelo joio.
O êxito
depende, na
maior parte
do tempo,
de um golpe
de sorte.
Entretanto,
a própria
má
sorte tem
as suas razões.
Violette Leduc
não
quer agradar.
Não
agrada e até
assusta. Os
títulos
de seus livros
— L'
Asphyxie
(A Asfixia),
L'Affamée,
(A Faminta),
Ravages
(Destroços)
— não
são
divertidos.
Ao folheá-los,
entrevemos
um mundo pleno
de ruído
e raiva, onde
o amor muitas
vezes traz
o nome de
ódio,
onde a paixão
de viver se
expande em
gritos de
desespero.
Um mundo devastado
pela solidão
e que de longe
parece árido.
Não
o é,
porém.
"Sou
um deserto
que monologa",
me escreveu
um dia Violette
Leduc. Nos
desertos encontrei
belezas incontáveis.
Quem quer
que nos fale
do fundo de
sua solidão
fala de nós.
O homem mais
mundano ou
o mais militante
tem seus recônditos
onde ninguém
se aventura,
nem mesmo
ele, mas que
lá
estão:
a noite da
infância,
os fracassos,
as renúncias,
a brusca emoção
de uma nuvem
no céu.
Surpreender
uma paisagem,
um ser, tais
como existem
em nossa ausência:
sonho impossível
que todos
nós
acariciamos.
Se lemos A
Bastarda,
o sonho se
realiza, ou
quase. Uma
mulher desce
ao mais secreto
de si mesma
e se revela
com uma sinceridade
intrépida,
como se não
houvesse ninguém
para escutá-la.
"Meu
caso não
é único",
diz Violette
Leduc, começando
esta narrativa.
Não,
mas é
singular e
significativo.
Ele demonstra,
com excepcional
clareza, que
uma vida é
a retomada
de um destino
por uma liberdade.
Desde as primeiras
páginas,
a autora nos
esmaga sob
o peso das
fatalidades
que a talharam.
Durante toda
a infância,
a mãe
lhe insuflou
um irremediável
sentimento
de culpa,
culpa de ter
nascido, de
ter saúde
frágil,
de custar
dinheiro,
de ser mulher
e fadada aos
males da condição
feminina.
Viu seu reflexo
nos dois olhos
azuis e duros:
um erro vivo.
Sua avó,
com ternura,
preservou-a
da destruição
total. Graças
a ela, Violette
Leduc pôde
salvaguardar
uma vitalidade
e um fundo
de equilíbrio
que, nos piores
momentos de
sua história,
a impediram
de soçobrar.
Mas o papel
do "anjo
Fidéline"
era apenas
secundário,
e ela morreu
cedo. O outro
se encarnava
na mãe
de olhar de
aço.
Esmagada por
ela a criança
quis se anular
totalmente.
Idolatrou-a,
gravou em
si mesma a
sua lei: fugir
dos homens.
Votou-se a
servi-la e
lhe ofereceu
o seu futuro.
A mãe
se casou.
A menininha
se abalou
com essa traição.
Daí
em diante,
teve medo
de todas as
consciências,
porque detinham
o poder de
transformá-la
em monstro,
de todas as
presenças
porque arriscavam
a se desmanchar
em ausência.
Refugiou-se
em si mesma.
Por angústia,
por decepção,
por rancor,
escolheu o
narcisismo,
o egocentrismo,
a solidão.
"Minha
feiúra
me conservará
isolada até
a morte",
escreveu Violette
Leduc. Essa
interpretação
não
me satisfaz.
A mulher que
A
Bastarda
retrata interessa
a modistas,
grandes costureiros
— Lelong,
Fath —
a tal ponto
que eles se
comprazem
em lhe oferecer
suas mais
audaciosas
criações.
Inspira uma
paixão
em Isabelle.
Em Hermine,
um amor ardente
que dura anos.
Em Gabriel,
sentimentos
bastante violentos
que o levam
a se casar
com ela. Em
Maurice Sachs,
uma firme
simpatia.
Seu "nariz
grande"
não
desencoraja
a camaradagem
nem a amizade.
Se algumas
vezes ela
faz rir, não
é por
causa dele.
Em sua roupa,
no penteado,
em sua fisionomia,
há
qualquer coisa
de provocante
e insólito.
A zombaria
busca afirmação.
Sua feiúra
não
comandou seu
destino, mas
o simbolizou.
Ela procurou
no espelho
razões
para ter pena
de si própria.
Porque,
ao sair da
adolescência,
achou-se presa
em uma máquina
infernal.
Essa solidão
da qual fez
seu quinhão,
ela a detesta,
e porque a
detesta, nela
se chafurda.
Nem eremita,
nem exilada,
sua desgraça
é não
conhecer com
ninguém
uma relação
de reciprocidade:
ou o outro
é para
ela um objeto,
ou ela se
faz objeto
para ele.
Nos diálogos
que escreve
transparece
sua impossibilidade
de se comunicar.
Os interlocutores
falam um junto
ao outro e
não
conversam;
cada qual
tem uma linguagem
própria,
não
se compreendem.
Mesmo no amor,
sobretudo
no amor, a
troca é
impossível,
pois Violette
Leduc não
aceita uma
dualidade
em que a ameaça
da separação
esteja latente.
Toda ruptura
ressuscita
de maneira
intolerável
o drama de
seus quatorze
anos: o casamento
de sua mãe.
"Não
quero que
me deixem":
é o
leitmotiv
de Ravages.
É preciso,
pois, que
o casal seja
um só
ser. Em alguns
momentos,
Violette Leduc
pretende se
aniquilar,
faz o jogo
do masoquismo.
Tem, entretanto,
demasiado
vigor e lucidez
para não
se manter
nele por muito
tempo. Ela
é quem
devorará
o ser amado.
Ciumenta,
exclusivista,
agüenta
com dificuldade
a afeição
de Hermine
pela família,
as relações
de Gabriel
com a mãe
e a irmã,
suas amizades
de homem.
Exige que
sua amiga,
terminado
o dia de trabalho,
lhe consagre
todos os instantes.
Hermine cozinha
e costura
para ela,
escuta-lhe
as lamentações,
se afoga com
ela no prazer
e cede a todos
os seus caprichos.
Hermine nada
reclama, salvo,
à noite,
o direito
de dormir.
Insone, Violette
se insurge
contra essa
deserção.
Mais tarde,
também
proíbe
Gabriel de
dormir. "Odeio
os que dormem."
Sacode-os,
desperta-os
e os obriga,
através
de lágrimas
ou de carinhos,
a manter os
olhos abertos.
Menos dócil
que Hermine,
Gabriel pretende
exercer sua
profissão
e dispor do
tempo a seu
bel-prazer.
Cada manhã,
quando quer
partir, Violette
tenta por
todos os meios
reconduzi-lo
ao leito.
Ela atribui
essa tirania
a suas "insaciáveis
entranhas".
Na verdade,
deseja bem
outra coisa
que a volúpia:
a posse. Quando
faz Gabriel
gozar, quando
o recebe nela,
ele lhe pertence,
a união
se realiza.
Quando ele
sai de seus
braços,
é novamente
este inimigo:
um outro.
"Miragens
idênticas
da presença
e da ausência".
A ausência
é um
suplício:
a angustiante
espera de
uma presença.
A presença
é um
intermédio
entre duas
ausências,
um martírio.
Violette Leduc
detesta seus
carrascos.
Eles têm
— como
todo mundo
— uma
convivência
consigo mesmos
que a exclui.
E também
certas qualidades
de que ela
é desprovida
e por isso
se sente lesada.
Inveja a boa
saúde
de Hermine,
seu equilíbrio,
sua atividade,
sua alegria.
Sente inveja
de Gabriel
porque é
homem. Não
pode destruir
seus privilégios
a não
ser destruindo
completamente
sua pessoa.
Mesmo assim,
ela tenta.
"Você
quer me destruir",
diz Gabriel.
Sim. A fim
de suprimir
o que os diferencia
e para se
vingar. "Eu
me vingava
de sua presença
perfeita demais",
dizia a respeito
de Hermine.
Quando um,
depois o outro,
deixam-na
para sempre,
ela se desespera;
entretanto
atinge seu
objetivo.
Secretamente
desejava quebrar
essa ligação,
esse casamento.
Pelo prazer
do fracasso.
Porque visa
a sua própria
destruição.
É "o
louva-a-deus
devorando
a si mesmo".
Mas tem bastante
saúde,
para trabalhar
apenas para
sua ruína.
Na realidade,
ela perde
a fim de perder
e ganhar ao
mesmo tempo.
Suas rupturas
são
reconquistas
próprias.
Entre
tempestades
e bonanças,
reserva sempre
— esta
é sua
força
— o
cuidado de
se preservar.
Nunca se entrega
totalmente.
Após
algumas semanas
ardentes,
foge logo
da paixão
de Isabelle.
No início
de sua vida
em comum com
Hermine, luta
para continuar
a trabalhar
e prover suas
necessidades.
Vencida pelo
médico,
por sua mãe
e Hermine,
a dependência
lhe pesa.
Foge disso
graças
à camaradagem
ambígua
que entretém
com Gabriel
e que durante
longo tempo
permanece
clandestina.
Casando-se
com ele, contesta
esse laço
consumindo-se
de desejo
por Maurice
Sachs. Quando
Sachs, tendo
partido como
trabalhador
livre para
Hamburgo,
quer voltar
à aldeia
onde tinham
passado alguns
meses juntos,
ela se recusa
a ajudá-lo.
Carregando
com a força
de seus pulsos
malas cheias
de manteiga
e de pernis,
amontoando
dinheiro,
exausta e
vitoriosa,
conhece a
embriaguez
de se superar.
Sachs perturbaria
o universo
no qual ela
reina, rígida
e altiva como
um cipreste.
O
próximo
sempre a frustra,
fere, humilha.
Quando luta
com o mundo,
sem socorro,
quando trabalha
e tem êxito,
a alegria
transporta-a.
Essa choramingas
é também
a viajante
que no Trésors
à Prendre
percorre a
França,
mochila às
costas, inebriada
por suas descobertas
e pela própria
energia. A
mulher que
se basta:
é sob
essa imagem
que Violette
Leduc se satisfaz.
"Eu atingia
o extremo
de meus esforços,
enfim, eu
existia."
Mas
ela precisa
amar. Tem
necessidade
de alguém
a quem dedicar
seus enlevos,
suas tristezas,
seus entusiasmos.
O ideal seria
consagrar-se
a um ser que
não
a embarace
com sua presença,
a quem possa
dar tudo sem
que ele lhe
tire nada.
Assim amou
Fidéline
— "Minha
pequena rainha
que não
envelheceu"
—, maravilhosamente
embalsamada
em sua memória.
E Isabelle,
que se transformou,
no fundo do
passado, em
um ídolo
fascinante.
Invoca-as,
acalenta-se
com a imagem
delas, prosterna-se
a seus pés.
Por Hermine
ausente e
já
perdida, seu
coração
enlouquece.
Sente uma
paixão
repentina
por Maurice
Sachs e, mais
tarde, por
dois outros
homossexuais.
O obstáculo
que a separa
deles é
tão
intransponível
quanto um
ano-luz. Na
companhia
deles "se
inflama no
braseiro do
impossível".
Há
voluptuosidade
em um desejo
insatisfeito
quando este
não
contém
esperança
alguma. A
mulher que
em L'Affamée
Violette Leduc
denomina Madame
não
deixa de ser
menos inacessível.
Em La
vieille fille
et le mort
(A Solteirona
e o Defunto),
levou ao paroxismo
o fantasma
de um amor
sem correspondência,
onde o outro
seria reduzido
à passividade
das coisas.
A Srta. Clarisse,
solteirona
de cinqüenta
anos —
não
por falta
de interesse
dos homens,
mas porque
os desdenhou
— encontra
uma tarde,
em um café
junto à
sua mercearia,
um desconhecido
morto. Cobre-o
de cuidados
e ternura
sem que ele
atrapalhe
suas expansões,
fala-lhe e
inventa suas
respostas.
A ilusão,
porém,
se dissipa,
pois que ele
nada recebeu,
ela não
deu nada.
Não
achou conforto
nele e se
reencontra
só
diante de
um cadáver.
Os amores
a distância
maltratam
tanto Violette
Leduc quanto
os amores
compartilhados.
"Jamais
você
estará
satisfeita",
lhe diz Hermine.
Hermine mata-a
esmagando-a
de carinhos,
e Gabriel,
se recusando.
A presença
perturba-a,
a ausência
arrasa-a.
A chave dessa
maldição,
ela nos entrega:
"Vim
ao mundo,
fiz o juramento
de possuir
a paixão
do impossível."
Essa paixão
possuiu-a
no dia em
que, traída
pela mãe,
refugiou-se
junto ao fantasma
do pai desconhecido.
Esse pai tinha
existido,
e era um mito.
Penetrando
em seu universo,
penetrou em
uma lenda.
Escolheu o
imaginário,
que é
uma das faces
do impossível.
Ele tinha
sido rico
e refinado.
Ela ressuscitou
seus gostos,
sem esperança
de satisfazê-los.
Entre os vinte
e os trinta
anos, cobiçou
desvairadamente
o luxo de
Paris: móveis,
vestidos,
jóias,
belos carros.
Mas não
esboçou
o menor gesto
para obtê-los:
"O que
eu queria?
Não
fazer nada
e possuir
tudo."
O sonho da
grandeza contava
mais que a
própria
grandeza.
Ela se alimenta
de símbolos.
Transfigura
os instantes
com ritos:
o aperitivo
tomado no
subsolo com
Hermine, o
champagne
bebido com
a mãe
pertencem
a uma vida
fictícia.
Ela se mascara
quando enfia,
ao som de
tambores irreais,
o costume
colante de
Schiaparelli,
e seu passeio
nos grandes
bulevares
é uma
paródia.
Essas
tapeações,
entretanto,
não
a satisfazem,
pois conservou
de sua infância
camponesa
a necessidade
de coisas
sólidas
nas mãos,
de sentir
a terra sob
os pés,
de realizar
atos de verdade.
Fabricar a
realidade
com o imaginário
é apanágio
dos artistas
e dos escritores.
Ela se encaminhará
em direção
a essa saída.
Em
suas relações
com o próximo
assumia apenas
seu destino.
Mas inventa-lhe
um sentido
imprevisto
quando se
orienta para
a literatura.
Tudo começou
no dia em
que entrou
em uma livraria
e pediu um
livro de Jules
Romains. Em
sua narrativa,
não
valoriza a
importância
desse fato
de que, na
hora, não
suspeitou
evidentemente
das conseqüências.
Um leitor
desatento
verá
em sua história
nada mais
que uma série
de acasos.
Trata-se,
na verdade,
de uma escolha
que se mantém
e se renova
durante cerca
de quinze
anos antes
de chegar
a uma obra.
Enquanto
viveu à
sombra de
sua mãe,
Violette Leduc
desprezou
os livros.
Preferia roubar
couve atrás
de uma charrete,
colher verduras
para os coelhos,
conversar,
viver. No
dia em que
se voltou
para o pai,
os livros
— que
ele amara
tanto —
fascinaram-na.
Sólidos,
brilhantes,
eles continham,
sob a bela
capa lustrosa,
mundos onde
o impossível
se torna possível.
Comprou e
devorou Mort
de quelqu'
un (Morte
de um alguém).
Romains. Duhamel.
Gide. Não
mais os largará.
Quando se
decide a trabalhar,
põe
um anúncio
na Bibliographie
de la France.
Entra numa
editora, redige
notas sociais.
Não
ousa ainda
sonhar em
escrever livros,
mas se nutre
de rostos
e de nomes
famosos. Após
seu rompimento
com Hermine,
vai trabalhar
com uma empresária
de cinema.
Lê as
sinopses,
propõe
seus desenvolvimentos.
Assim desviou
o curso de
sua existência
e provocou
a chance que
a fez encontrar
Maurice Sachs.
Ele se interessa
por ela, aprecia
suas cartas,
aconselha-a
a escrever.
Ela principia
por novelas
e reportagens
que envia
a uma revista
feminina.
Mais tarde,
cansado com
a repetição
de suas recordações
da infância,
ele lhe dirá:
escreva-as.
Surgirá
L'Asphyxie.
Súbito,
ela compreendeu
que a criação
literária
poderia ser-lhe
uma salvação.
"Escreverei,
abrirei os
braços,
abraçarei
as árvores
frutíferas,
vou dá-las
à minha
folha de papel."
Falar a um
morto, a surdos,
a coisas,
é um
jogo duro.
O leitor cumpre
a síntese
impossível
da ausência
e da presença.
"O mês
de agosto
hoje, leitor,
é uma
rosácea
de calor.
Eu a ofereço
a você,
de presente."
Ele recebe
tal presente
sem alterar
a solidão
do autor.
Escuta seu
monólogo,
não
o responde,
mas o justifica.
É
preciso entretanto
ter qualquer
coisa a lhe
dizer. Enamorada
do impossível,
Violette Leduc
não
perdeu, contudo,
o contato
com o mundo.
Ao contrário,
abraça-o
para preencher
sua solidão.
Sua situação
singular protege-a
contra as
visões
pré-fabricadas.
Sacudida do
fracasso à
nostalgia,
nada considera
pronto. Incansavelmente,
interroga
e recria com
palavras o
que descobriu.
Tinha tanto
a dizer que
seu ouvinte
fatigado lhe
pôs
uma caneta
nas mãos.
Obcecada
por si mesma,
todas as suas
obras —
salvo Les
Boutons Dorés
(Os Botões
Dourados)
— são
mais ou menos
autobiográficas:
lembranças,
diário
de um amor,
ou antes de
uma ausência;
diário
de uma viagem;
romance que
transpõe
um período
de sua vida;
longa novela
que põe
em cena seus
fantasmas;
enfim, A
Bastarda,
que retoma
e ultrapassa
seus livros
anteriores.
A
riqueza de
suas narrativas
provém
mais da ardente
intensidade
de sua memória
que das circunstâncias.
A cada momento
ela, toda
inteira, lá
está
através
da espessura
dos anos.
Cada mulher
amada ressuscita
Isabelle em
quem ressuscitava
uma jovem
mãe
idolatrada.
O avental
azul de Fidéline
ilumina todos
os céus
de verão.
Às
vezes a autora
pula para
o presente,
nos convida
a sentar a
seu lado sobre
as folhas
de pinheiro.
Assim anula
o tempo, o
passado toma
as cores da
hora que está
soando. Uma
colegial de
cinqüenta
e cinco anos
traça
palavras em
um caderno.
Também
nos arrasta
em delírios
quando suas
lembranças
não
são
bastantes
para lhe aclarar
as emoções;
então
conjura a
ausência
através
de fantasmagorias
líricas
e violentas.
A vida vivida
envolve a
vida sonhada
que transparece
em filigrana
nas narrativas
mais despojadas.
Sua
principal
heroína
é ela.
Mas seus protagonistas
existem intensamente.
"Pontilhismo
atroz do sentimento."
Uma entonação
da voz, um
franzir de
sobrancelhas,
um silêncio,
um suspiro,
tudo é
promessa ou
recusa exacerbada,
tudo adquire
um relevo
dramático
para aquela
que é
apaixonadamente
engajada em
sua relação
com os outros.
A "atroz"
preocupação
que tem por
seus menores
gestos é
sua felicidade
de escritora.
Faz com que
vivam para
nós
em sua opacidade
inquietante
e seus detalhes
minuciosos.
A mãe,
provocante
e violenta,
imperiosa
e cúmplice,
Fidéline,
Isabelle,
Hermine, Gabriel,
Sachs, tão
espantosos
como nos seus
próprios
livros. Impossível
esquecê-los.
Porque
"nunca
está
satisfeita",
permanece
disponível,
todo encontro
pode aplacar
sua fome ou